A Bíblia e a Reforma Protestante

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por Ênio Caldeira Pinto

Introdução

Ao estudar um período da História Antiga até a Idade Média, ou até mesmo um determinado movimento, o pesquisador se depara com vários desafios quanto ao crédito a ser dado para o elemento responsável pelas mudanças na sociedade. Assim como o fogo tornou-se um diferencial na teoria da evolução humana, a escrita também marcou o entendimento acerca da pré-história e da história. Em contextos religiosos, determinados símbolos e/ou referências se tornam sínteses do mito (crenças) e do rito (comportamentos). É o caso do Jardim do Éden, do Monte Sinai, do Tabernáculo, da Torah, da Cruz de Cristo, entre outros. De certa maneira, a humanidade adota símbolos para indicar a síntese da fé. Neste sentido, além de ser considerada coleção dos textos sagrados, a Bíblia é a referência para grandes mudanças na história humana.

Desde a constantinização da humanidade (leia-se a cristianização do Império Romano), a Igreja Cristã acabou se autoconsiderando detentora da verdade e dos dogmas institucionais da Santa Fé. Assim sendo, esta hermenêutica entendeu que a prática da educação cristã seria aquela que acontecia no momento das missas e celebrações, enquanto a educação teológica ficaria restrita aos noviços e monges, fielmente consagrados à vida monástica. Com exceção dos conhecimentos comerciais, medicinais e religiosos, advindos de outras fontes não cristãs, admite-se que essencialmente a literatura produzida para os cristãos foi resultado dos processos nihil obstat (nada contra), imprimi potest (pode ser impresso) e, finalmente, imprimatur (que se imprima). E, em alguns casos dos sistemas monárquicos, os censores régios tinham autoridade recolher publicações consideradas impróprias – uma espécie de censura. Assim sendo, por cerca de quinze séculos, o Cristianismo baseou-se no método mnemônico de aprendizagem para a formação de cristãos, do qual a repetição e memorização eram as técnicas mais enfáticas.

Em linguagem contemporânea, pode-se dizer que havia dois projetos pedagógicos de formação cristã, o promovido pela igreja (missas) e o promovido pelos mosteiros. O projeto da igreja acabou minimizando a leitura vernacular das passagens bíblicas e das homilias porque ambas eram proclamadas em latim, ocasionando dificuldades para o próprio povo. Portanto, a leitura da Bíblia não era feita e nem havia qualquer incentivo. No período medieval, as superstições reforçavam que o estudo das Escrituras tornava as pessoas loucas e insensíveis à voz divina. Por isso, o ensino dogmático das expressões litúrgicas concentrava o comportamento e o entendimento dos fiéis, a partir dos quais a Palavra do Senhor e a Palavra da Salvação, repetidas em todas as celebrações, produziam o significado de salvação dentro da igreja.

O projeto pedagógico dos mosteiros era dividido em duas fases, o Trivium e o Quadrivium. Este modelo clássico era conhecido como Artes Liberais. Pode-se dizer que ele era bem mais elaborado e fortemente educacional. O Trivium exigia o domínio da Gramática (normas), da Lógica (desenvolvimento cognitivo) e da Retórica (prática de leitura, interpretação e oralidade). E o Quadrivium dava continuidade à primeira fase pelos conhecimentos da Aritmética (simbologia dos números), da Geometria (formas e espaços), da Música (valor numérico do tempo, harmonia, axiologia) e da Astronomia (equilíbrio, leis físicas, forças e movimentos). Somente após o exímio domínio dessas duas fases é que os estudos teológicos eram iniciados. Dos séculos IV ao XVI, os monges dedicavam-se ao estudo dos Escritos Sagrados, cujo trabalho era fortemente relacionado à produção de cópias, de traduções, de comentários e de concatenação das passagens bíblicas (uma espécie de relação de passagens sobre um determinado tema, chave linguística). Todavia, a produção das reflexões, exegeses e devocionais não chegava até o público que frequentava as comunidades. Os mosteiros, em sua maioria, eram auto suficientes e o estilo de vida em clausura impedia a divulgação e comunicação com o mundo.

Em geral, os pré-reformadores e reformadores participaram destes modelos e conseguiram unir a leitura com o estudo da Bíblia, a ponto de recuperar a primazia dela nos púlpitos, na orientação individual e no ensino da igreja. Já no século XV, muitos monges eram designados para o ensino nas universidades do continente europeu, principalmente para o ensino das Escrituras. Para muitos eruditos, a Bíblia era utilizada para certificar e confirmar a fé do indivíduo, tornando-se regula (régua, medida), principalmente para os efeitos de justificação, de consagração para o exercício de ministérios e de construção de vidas (poimênica). Para os reformadores, a Bíblia tem autoridade suprema para o entendimento acerca da fé salvífica e redentora. É, pois, neste sentido que a expressão Sola scriptura (somente pelas Escrituras) revolucionou a sociedade europeia.

Erasmus de Rotterdam (1466-1536)

Seu nome de batismo é Desidério Erasmo. Trata-se de um teólogo e escritor holandês que expressava muito compromisso e admiração pela Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR), especialmente pelo estudo bíblico. Mesmo sendo fiel à igreja, fazia críticas à liderança e simpatizou-se com os discursos sobre reformas. Sua maior crítica era com respeito ao uso da Vulgata, isto é, uma tradução da Bíblia para o latim feita no século IV. Ao perceber a relevância da leitura em língua holandesa, começou a tradução do Novo Testamento, em cuja oportunidade acabou corrigindo os “erros” da Vulgata. Foi a tradução de Erasmo que auxiliou a tradução feita por Lutero (1522), William Tyndale (1526) e a King James Version (1611). Em cada domingo, ele publicava o missário com pequenos trechos bíblicos traduzidos para o holandês. Após um ano, ficou realmente convencido de que este trabalho teria que ser feito desde a evangelização cristã em continente europeu. Em 1516 ocorreu a primeira publicação, conhecida como a Bíblia de Erasmo.

Martinho Lutero (1483-1546)

Foi um dos reformadores que mais defendeu o uso da Bíblia na igreja. Por ter sido um leitor assíduo de Santo Agostinho e Tomás de Aquino, conseguiu absorver a compreensão do conceito (e expressão) Sola gratia (somente pela graça). Devido à sua erudição e didática, foi indicado para lecionar as Escrituras na Universidade de Wittenberg. Há comentários sobre a biografia dele que registram o estudo que ele fazia e das anotações que costumava colocar em alguns trechos considerados “autoritativos” e exegéticos. Foi em uma dessas anotações que ele chegou à máxima teológica da salvação pela graça, fazendo oposição direta ao ensino institucional da Igreja Católica Romana. Os comentários também afirmam que Lutero entrou na capela e leu Romanos 1:16,17 enfatizando o trecho “O justo viverá pela fé” e, a partir, de então, começou seus sermões e exposições doutrinárias. Não somente Lutero, pois os outros reformadores também entenderam que somente as Escrituras se constituem como fundamentos da vontade divina. As Escrituras, portanto, são como luzes que abrem e iluminam os entendimentos humanos.

Tão logo Lutero divulgou suas 95 teses contra a Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR), ficou convencido sobre a importância da tradução da Bíblia para o alemão. Por medidas de segurança, estabeleceu moradia no Castelo de Wartburg em cuja oportunidade começou a traduzir o Novo Testamento, do grego para o alemão (1521). Foram apenas onze semanas e em setembro de 1522 publicou o NT em alemão. Já para o Antigo Testamento, o trabalho foi mais longo, durando doze anos. Como ele mesmo confessa não ser fluente em aramaico e hebraico, a tradução foi feita em pequenas partes. Como músico, dedicou-se mais tempo aos Salmos, tanto metrificando-os como preservando a musicalidade. Em alemão, fez toda a escansão dos “poéticos” do AT. Sua tradução ficou conhecida como “Die Bibel” (A Bíblia, de Martinho Lutero). A versão alemã traz a tradução dos livros considerados apócrifos e pseudepígrafos. Posteriormente, as outras vertentes da Reforma (anglicana, luterana e calvinista [reformadas e presbiterianas]) também incluíram esses textos. No Brasil, a Sociedade Bíblica do Brasil não adota a inclusão de tais traduções em publicações de bíblias.

William Tyndale (1484-1536)

Fortemente influenciado por Erasmo de Roterdã e Martinho Lutero, foi o teólogo inglês que decidiu por si mesmo publicar uma “nova” Bíblia na Inglaterra, ou seja, era consciente sobre o perigo de morte que corria por não ter autorização para traduzir, quiçá publicar. Em 1526 publicou integralmente o Novo Testamento, enquanto partes aleatórias do Antigo Testamento iam sendo preparadas. De imediato, foi advertido e perseguido. Por dez anos, a Bíblia em inglês obteve recepção positiva pelo povo britânico, a ponto de causar rumores aos líderes católicos. Foi considerado herege pela ICAR e sentenciado a morte em duas etapas: ser estrangulado até morrer e depois ser queimado na fogueira. Todavia, sua morte não foi esquecida e nem tampouco ignorada.

Assim sendo, o rei Henrique VIII fez a separação das igrejas em solo inglês. Doravante, havia a Igreja da Inglaterra, também conhecida como Igreja Anglicana, e Igreja Católica Apostólica Romana. Em 1534, a Convenção de Canterbury solicitou ao rei Henrique VIII que indicasse um tradutor da Bíblia para o inglês. O rei escolheu Miles Coverdale, que era tradutor auxiliar de Tyndale, pois juntos publicaram quatro anos antes a tradução do Pentateuco. Em 1535, foi publicada a Bíblia de Coverdale. Entretanto, pelo uso e certa adesão ao texto de Tyndale, em 1539, publica-se a Grande Bíblia de Tyndale para ser lida em cultos anglicanos.

Ulrich Zwingli (1484-1531)

Em língua portuguesa é mais conhecido por Ulrico Zwinglio. Foi o reformador suíço que mais se preocupou com a questão hermenêutica da Bíblia, ou seja, como saber se a interpretação estava correta? De fato, ele considerou e aplicou o princípio de que Palavra se sustém por ela mesma. Neste sentido, a expressão latina sola scriptura ratifica de que a Bíblia é a essência escriturística da fé cristã. Seu questionamento baseou-se nas falácias que ocorriam com o método alegórico. Por exemplo: o vocábulo Jerusalém, citado várias vezes na Bíblia, poderia alegoricamente ser a igreja cristã (sentido figurado) e não cidade-templo da região da Judeia (sentido literal). Tais questionamentos acabaram fortalecendo a exegese e homilética realizadas por Zwinglio, elevando o número de simpatizantes e ouvintes. Ou seja, a interpretação alegórica (literal) era intelectualmente desonesta e enfraquecia o entendimento acerca da história e até mesmo literário. Portanto, a autoridade da Bíblia foi recuperada e tornou-se válida para ser lida, conhecida e aplicada. O movimento da Reforma, ao enfatizar o conceito da sola scriptura, converteu-se em “método” de leitura – daí dizer acerca do jeito protestante de ler a Bíblia.

João Calvino (1509-1564)

Foi o reformador que mais enfatizou o conhecimento técnico das línguas bíblicas (hebraico, aramaico, grego e latim) para a exegese (tradução e interpretação), uso de dicionários, analíticos, léxicos, comentários e apostilas (exposições sobre determinadas passagens bíblicas) para o ensino da fé (discipulado), da mente (intelecto) e do espírito (verdades, axiomas). Em seu contexto, a abordagem metodológica para o estudo das Escrituras significava honestidade acadêmica (ou simplesmente integridade intelectual), o que favoreceu o calvinismo se difundir como a Bíblia ajuda as pessoas a conhecer e desenvolver a fé, bem como o intelecto. Devido à sua formação eclesiástica, Calvino enfatizou também a atuação do Espírito em associação ao estudo das Escrituras (hagiografia), por meio da inspiração, da exegese e da homilética. Para ele, o indivíduo tinha dependência do Espírito para o entendimento das Escrituras quando exigia que a interpretação daquela passagem tivesse conexão com o contexto em que aconteceu, bem como em que foi escrito.

Para muitos estudiosos dos reformadores, especialmente os que gostam de Calvino, há várias menções de que ele havia sido influenciado pelo movimento humanista da sua época. Este movimento, iniciado na Itália no século XVI e com forte predominância dos conceitos da Renascença, ansiava pelo rompimento dos valores religiosos, cujo controle da Igreja transparência uma metodologia teocêntrica. Em defesa do conhecimento e dos métodos de produção do saber, uma nova metodologia aparecia: o antropocentrismo, que em sentido lato, significa a valorização do ser humano, uma abordagem mais simples e clara de interpretar e aplicar os valores bíblicos à vida humana. Este novo conceito, portanto, colaborou para o reformador incentivar a leitura da Bíblia, inclusive no idioma (vernáculo) do grupo. Desde então, a leitura dos textos sagrados passou a ser feita por leigos – uma popularização da hermenêutica e da Exegese.

A contribuição de Calvino sobre o uso da Bíblia foi além das questões de tradução, exegese e hermenêutica. Ele acabou liderando e sendo referência para ingleses, tal como o teólogo Miles Coverdale, que fugiram para Genebra (Suíça), após o rei Edward VI falecer a coroa ser sucedida por uma rainha Católica, Mary (1553). Para os escoceses, tal como John Knox, que contribuiu para a publicação de um Bíblia essencialmente calvinista, a chamada A Bíblia de Genebra. Iniciada em 1553, esta Bíblia chegou à publicação final em 1560, trazendo acréscimos didáticos (mapas, referências cruzadas, pequena chave bíblica, resumos introdutórios, guias de estudo, bem como foi a primeira versão protestante a dividir o texto em capítulos e versículos. No Brasil, esta Bíblia chegou somente em 1995, editada por R. C. Sproul. Porém, em 2009 ela ganhou maior projeção ao ser publicada pela Cultura Cristã e pela Sociedade Bíblica do Brasil.

Considerações Finais

Em ambientes protestantes ou os que seguem a tradição protestante é muito comum a expressão “precisamos de um avivamento”, ou ainda, “precisamos de uma nova Reforma”. Sim, a tradição protestante se caracteriza essencialmente pelo moto Ecclesia reformata semper reformanda est (A igreja reformada está sempre se reformando). E há vários elementos que contribuem para esta realidade, tais como: a fé, a piedade e as virtudes. Assim como, a oração, a diaconia, o trabalho e a adoração, entre outros. E, há sim muito mais outros. Porém, há que considerar a Bíblia, literalmente o seu texto, a partir da qual com duas ações apenas todo ser humano é capaz de reformar-se, avivar-se e contextualizar-se, quais sejam: a leitura e a prática do reconto. Sim, a leitura da Bíblia faz-nos recontar a experiência ali revelada; ela nos leva à mente de Cristo, à ciência das habilidades e capacidades divinamente doadas pelo Espírito de Deus; ela nos ensina a ser adorador do Deus vivo e verdadeiro. É sábia a frase que diz: “uma sociedade é construída com bons livros e excelentes professores”. E a Bíblia é um conjunto de livros. Reformas, mudanças e contextualizações iniciam-se com o estudo da Palavra Escrita de Deus.

 

Ênio Caldeira Pinto – É Mestre em Teologia pelo Western Theological Seminary (EUA), Professor na FTSA.