Cuida(n)do – A arte do pastorado

ensinando a Bíblia

I Pedro 5:1-4
Pastorear o rebanho de Deus. Se alguma vez foi simples descrever o ministério pastoral, hoje já não o é. Que faz um (a) pastor (a)?  Prega, ensina, treina líderes, transforma a igreja, ora, evangeliza, administra, visita (ainda?)

Discipula, motiva, disciplina, dirige (?) o louvor, aconselha, batiza, ministra a ceia, arrecada, impetra a bênção (ainda se faz isto), faz o boletim, governa, doutrina, quebra paradigmas, faz teologia, faz missões, dá testemunho excepcional de vida pessoal, familiar, financeira …

Hiperinflação do ministério pastoral! Pastorear tornou-se um trabalho, uma profissão exigente. Ministério é para profissionais bem formados, treinados, capacitados, ordenados, assalariados, isolados. Seja como for, para pastorear é necessário fazer bem feito. Técnica. Tecnologia pastoral. Arte do fazer, fazer bem, fazer muito, fazer com sucesso; realizar, realização. Arte do fazer? Não seria melhor, arte de cuidar (-se)?

De que aspectos de nossa atividade nós, pastores (as), construímos nossa identidade ministerial e pessoal? Em que modelos nos espelhamos? No retrato doutrinário denominacional do (a) pastor (a)? Nos pastores/bispos/apóstolos neopentecostais, neotelevisivos? Nos pastores das grandes, megaigrejas locais, daqui ou do exterior (preferencialmente…)? Em pioneiros (as) ousadamente se aventurando à busca de novos paradigmas? Nos saudosos pastores do passado, pioneiros desbravadores dos tenebrosos sertões e sombrios porões da alma humana? Não seria melhor prestar atenção à arte do Supremo Pastor?

Arte de cuidar, de cuidar-se. No dicionário de português, cuidar é zelar pelo bem estar, pela saúde de; de outra pessoa, de si mesmo. No dicionário inglês-português, cuidar é também amar. Bem-estar, saúde e amor. Em linguagem teológica, bênção, amor e salvação. A arte do pastorear é, pode-se dizer, a amorosa arte de abençoar, de estar bem, de bem-estar. Amorosa arte de salvar, curar, vivificar. Por isso o Novo Testamento fala do Supremo Pastor. Ele, Jesus, pastoreou efetiva e eficazmente. A amorosa arte jesuânica de cuidar do rebanho culminou no dar-se pelo rebanho, ovelhas sem pastor…

A arte de pastorear, assim, fica mais leve, fluida, viável. É arte de participar no bem-estar já oferecido, na salvação graciosamente ofertada, no amor derramado. É, então, e primeiro de tudo, arte de ser pastoreado. Para cuidar é necessário ser cuidado. Na filosofia grega, dir-se-ia a arte de cuidar-se (o que bem estudou Michel Foucault). Na cosmovisão cristã, vinda do oriente, ser cuidado. A arte de deixar-se ser cuidado por Deus. Como Deus cuida? Valorizando, lembrando-se, reunificando. Para pastorear é preciso, antes de tudo, ser pastoreado por Deus. Três pontos, três passos.

1 – Aceitar a valorização que Deus faz de nós: pecadores (as), ovelhas sem pastor. Por isso mesmo, amadas por Deus, Pai gracioso. O que sou? Pecador amado por Deus. Pecador, para não sucumbir às tentações do sucesso, da eficiente eficácia que tudo faz bem, realiza, consegue. Amado por Deus, para não sucumbir às tentações do insucesso, da letargia preguiçosa de quem já não vê nem mais a luz no final do túnel.

2 – Ser reunificado na comunidade de Deus. Traço vertical: ser recebido pela divindade, salvo, perdoado, reconciliado, justificado, glorificado. Ser filho (a), convivendo carinhosamente com o Pai, Filho e Espírito Santo. Traço horizontal: fazer parte do Corpo de Cristo, da comunidade de fiéis, crentes. Fazer parte de. Não estar acima de; não dominar; não se alimentar de. Ser irmã (o), membro da família.

3 -Receber o lembrar-se divino. Como nos tempos dos pais e mães de Israel, Deus se lembra da aliança, da promessa, do compromisso. Porque se lembra, Deus cuida, cura, abençoa, acompanha, anima, corrige, perdoa. Lembra-se de amar permanentemente, sem atentar para o mérito, lembra-se em graça. Ser lembrado para poder lembrar. Lembrar do futuro, “esquecendo-me das coisas que para trás ficam”!

Só um lembrete. Este texto é o primeiro de uma série, uma série de propostas entre nós, líderes entre o povo de Deus. Propostas, antes que respostas, pois pastorear é arte de, sendo cuidado, cuidar: propor ao rebanho -de Deus -o caminho de Deus, não os atalhos.

Julio Paulo Tavares Zabatiero – Doutor em Teologia – Escola Superior de Teologia (Sâo Leopoldo), Professor nas áreas de Bíblia e Teologia Pública na FTSA, Pastor da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil