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Há 44 anos a Organização das Nações Unidas (ONU) oficializava o 8 de março como data comemorativa ao Dia Internacional da Mulher. Desde então, a mulher vem sendo lembrada de diversas formas em vários países.

Em 2019, como tantas outras vezes na história da sociedade, a figura da mulher volta a ser o centro dos olhares e das atenções. Este 8 de março próximo conclama-nos a mirar o universo feminino com as lentes da preocupação.

Novos conceitos vão tomando espaço e importância devida. Os desafios e sofrimentos aos que eram submetidas nossas ancestrais vão ganhando nome, leis e força. Palavras como feminicídio¹ , sexismo² e misoginia³ já fazem parte do cotidiano, mostrando-nos que o Dia Internacional da Mulher é um daqueles dias em que grita a história silenciada de tantas mulheres diminuídas, oprimidas e violentadas; mulheres que tiveram suas vidas ceifadas e que, em 2019, já fazem parte das estatísticas. É o que nos apresenta o Atlas da Violência 2018, produzido pelo IPEA e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), que nos permite compreender a progressão da violência contra a mulher e o processo de violência no Brasil, conforme citado:

Em 2016, o Brasil alcançou a marca histórica de 62.517 homicídios, segundo informações do Ministério da Saúde (MS). Isso equivale a uma taxa de 30,3 mortes para cada 100 mil habitantes, que corresponde a 30 vezes a taxa da Europa. Nos últimos dez anos, 553 mil pessoas perderam suas vidas devido à violência intencional no Brasil (ATLAS da Violência, 2018, p.3).

Em se tratando de realidade local, as estatísticas também são assustadoras! É o que nos assegura o levantamento feito em novembro de 2018 pela Secretaria de Políticas para as Mulheres da cidade de Londrina, em cuja reunião com a Rede Municipal de Enfrentamento à Violência Doméstica e Sexual Contra a Mulher, apresentou-se indicadores dos principais serviços da rede, a fim de melhor compreender o processo de acentuada violência, a começar pelos dados do Centro de Referência de Atendimento à Mulher (CAM), serviço criado no ano de 1993 que oferece atendimento psicossocial e orientação jurídica às mulheres em situação de violência doméstica e familiar.

O CAM atendeu no ano de 2018 um total de 324 casos sendo 212 casos novos, ou seja, mais de 70% das mulheres atendidas buscaram o serviço pela 1ª vez. Já a Casa Abrigo Canto de Dália, que oferece um serviço de acolhimento institucional para mulheres em situação de violência doméstica sob grave ameaça e risco de morte, acolheu no ano passado um total de 37 mulheres. Há de se ressaltar também os dados do Programa Rosa Viva, que consiste no atendimento médico, emergencial e ambulatorial para mulheres vítimas de violência sexual, mantido pela Secretaria Municipal de Saúde e que oferece atendimento 24 horas na Maternidade Municipal Lucila Ballalai. Este serviço atendeu em 2017 um total de 65 vítimas cadastradas no programa, das quais 36 tinham idade de 12 a 18 anos; 20 com idade de 19 a 30 anos e 9 mulheres maiores de 30 anos (SMPM, Relatório interno anual 2018. Não publicado).

Há de se pensar que nenhuma dessas ações voltadas ao enfrentamento da violência contra a mulher é possível sem que se estabeleçam redes de apoio organizadas. Em vários lugares do mundo, nós, mulheres, estamos nas ruas celebrando a força coletiva que construímos com nossa organização, o que, no universo teológico chamamos de sororidade. A sororidade é um elemento transformador na vida das mulheres que vivem em contextos de opressão, exclusão e violência, criando relações justas numa sociedade fundamentada na injustiça das relações de gênero. Marcela Lagarde, antropóloga latino-americana, conceitua sororidade da seguinte forma:

É uma experiência subjetiva entre mulheres na busca por relações positivas e saudáveis, na construção de aliança existencial e política com outras mulheres, para contribuir com a eliminação social de todas as formas de opressão e ao apoio mútuo para alcançar o empoderamento vital de cada mulher. A sororidade é a consciência crítica sobre a misoginia e é o esforço tanto pessoal quanto coletivo de destruir a mentalidade e a cultura misógina, enquanto transforma as relações de solidariedade entre as mulheres (LAGARDE, 2009, p. 1).

Apoiar-se mutuamente, viver em movimento e estabelecer redes nos faz recuperar nossas vozes e memórias silenciadas. Portanto, o Dia Internacional da Mulher representa muito mais que celebração. Representa reparação de injustiças, representa avanços legais e reclamação de direitos, representa denúncia de pecado, amparo, cuidado, sustento e transformação.
Embora vivamos em nosso avançado século XXI, ainda acontecem práticas que denigrem e objetificam a mulher, isolando-a e colocando-as às margens sombrias da sociedade, por uma mera condição patriarcal e reprodutiva. Portanto, o eco de eliminar toda e qualquer opressão feminina deve ressoar, não somente em 8 de março. Não é possível que as diferentes manifestações de violência contra as mulheres continuem a persistir; é preciso resgatar a dignidade humana e criar pontes para oportunidades iguais, superando a abordagem errônea da violência como eventos pontuais e sim como um sintoma crônico de uma sociedade doente e desigual.

Infelizmente, somos herdeiros de uma história com enormes condições que tornaram o caminho das mulheres difícil, desprezado em sua dignidade, esquecido em suas prerrogativas, frequentemente marginalizado e até reduzido à escravidão. É inadmissível que permaneça em nosso esquecimento a afirmativa de que os direitos humanos são direitos das mulheres e os direitos das mulheres são direitos humanos.

Neste 8 de março, queremos então proclamar o direito à plena humanidade de todo rosto feminino, o direto à vida para todas as mulheres, considerando sempre que as ações que negligenciam, distorcem e aniquilam a humanidade das mulheres não são redentoras, ou seja, não podem vir de Deus. Queremos também chamar a atenção das igrejas para esta problemática, já que, como cristãos, não estamos excluídos de tal realidade. A hora de nos levantarmos frente ao desafio de acolher, denunciar e contribuir para o fim de todas as formas de discriminação contra as mulheres é agora, pois, cuidar e combater as injustiças é tarefa da igreja.

Que a igreja se levante para agir, buscando os recursos e serviços profissionais adequados, trabalhando em coletividade e construindo parcerias sólidas com a rede de enfrentamento à violência contra a mulher, a fim de que os encaminhamentos necessários sejam feitos com excelência, e mais, servindo de referência para situações de abuso e violência, sempre e quando estes surgirem.

Tudo o que promove a plena humanidade das mulheres vem do Santo, vem de Deus; estejamos, portanto, como igreja, prontos para o serviço!

Não será assim entre vocês. Pelo contrário, quem quiser tornar-se importante entre vocês deverá ser servo, e quem quiser ser o primeiro deverá ser escravo; como o Filho do homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos" (Mt 20:26-28).

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1 Assassinato de uma mulher em função de seu sexo. Trata-se de um crime de ódio contra mulheres e meninas, pelo simples fato de elas serem mulheres ou meninas. Diana Russel foi pioneira no seu uso (‘femicide’ ou ‘feminicide’, em inglês) e se costuma distinguir entre feminicídio íntimo (cometido por uma pessoa com quem a vítima tinha ou havia tido uma relação sentimental) e não íntimo (perpetrado por uma pessoa ou grupo de pessoas com quem a vítima não tinha ou não havia tido nenhuma relação sentimental ou parentesco).
2 Discriminação das pessoas em razão do sexo. Embora o termo seja utilizado para se referir à discriminação contra ambos os sexos, o fato é que as práticas sexistas afetam principalmente as mulheres, dada a vigência de crenças culturais que as consideram naturalmente inferiores ou desiguais aos homens.
3 É o ódio ou aversão a mulheres e meninas. Embora sua manifestação mais evidente seja a violência machista (seja física, psicológica ou simbólica), também a humilhação, a discriminação, a marginalização e a objetificação sexual da mulher são formas de misoginia.

Referências bibliográficas
CERQUEIRA, Daniel et al. “Atlas da violência 2018”. Rio de Janeiro: IPEA, 2018. Disponível em: . Acesso em 1 mar, 2019.
LAGARDE, Marcela. “Definindo Sororidade”, 2009. Disponível em: . Acesso em: 1 mar, 2019.
SMPM. Relatório interno anual 2018. s/imprensa. Não publicado.

Vanessa Carvalho de Mello - Teóloga, mestre em psicologia social, docente da FTSA