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A pós-modernidade como a face “deste presente século” (Rm 12,1-2)
Assim como Jesus, enviado pelo Pai e ungido pelo Espírito, encarnou-se na sociedade e cultura de seu tempo, também a Igreja deve se encarnar na sociedade e cultura de seu próprio tempo. A cultura de nosso tempo é a forma de vida chamada de “pós-modernidade”. Como a cultura no tempo de Jesus, ela oferece oportunidades e desafios para a missão da Igreja. Seguindo o exemplo de Jesus, a Igreja deve se encarnar de forma crítica na pós-modernidade. As duas características básicas da encarnação missionária são: (a) o discernimento do Espírito (Cl 1,9-11), a fim de podermos distinguir entre o pecado e a justiça, o certo e o errado, o bem e o mal, a verdade e o erro em nossa cultura e sociedade; e (b) a compaixão (Mc 6,34), para podermos anunciar o Evangelho da salvação às pessoas que estão escravizados pelos poderes do pecado e da morte, e que caminham cegas, como ovelhas perdidas, sem pastor.

3.    O desafio da compaixão

Vivendo em uma sociedade e economia sem compaixão
A sociedade capitalista neo-liberal pós-moderna é perversa e sem compaixão. Nela só há lugar para as pessoas capazes e competentes, que conseguem cumprir todas as exigências do mercado de trabalho e de consumo. Cada vez mais as empresas exigem maior qualificação para seus trabalhadores, e cada vez mais as máquinas substituem as pessoas no desempenho de funções e realização de serviços – e com isso aumenta o desemprego, a economia informal e a marginalidade. Todavia, o capitalismo neo-liberal afirma que esse é o único caminho para a prosperidade das nações! Decretando o “fim da história” o capitalismo neo-liberal tomou o lugar do marxismo como a religião messiânica sem Deus.

Nas pertinentes palavras de um teólogo brasileiro, “não nos esqueçamos que o sistema de mercado, para conseguir totalizar-se como ‘único caminho’ para o bem comum ... exigia ser considerado como societas perfecta (sociedade perfeita) e ‘única religião verdadeira’, fora da qual não há salvação para ninguém, ainda que a condenação lhes tocasse a muitos. Para tanto era necessário um deus absconditus (deus oculto) de uma infinitude realmente ‘perversa’, quer dizer, que virasse tudo ao revés (per-verter) e direcionasse tido em uma mesma direção: a autovalorização, sem limite, do Capital. Já não se trata, obviamente, da simples acumulação de dinheiro e riquezas. Estamos diante de um deus infinitamente insaciável, para o qual todos os sacrifícios serão insuficientes.” (Hugo Assmann, Clamor do Pobres e ‘Racionalidade’ Econômica, pp. 44s.)

A sociedade pós-moderna, dominada pelo “deus Capital” gera um sistema social de exclusão, mediante o qual um número cada vez maior de pessoas é excluído do mercado de trabalho, da educação, da saúde, da dignidade, da própria vida! As pessoas excluídas são os “bodes expiatórios” dos pecados da ineficiência econômica e da falta de competitividade produtiva. Em primeiro lugar o bem-estar da economia, depois, cuidemos das pessoas. A chamada “globalização” da economia traz consigo uma perversa globalização da miséria e do sofrimento humano. Só tem valor aquilo que dá lucro, aquilo que aumenta a produtividade e a qualidade, aquilo que é “total”. Nessa sociedade “qualidade total” pouco lugar há para os seres humanos, que são parciais, incompletos, pecadores. Recusados, ou elogiados, pelo “deus escondido”, as pessoas cada vez mais se refugiam nas drogas, na violência, nas religiões sem compromisso, no sexo sem amor, no individualismo, no consumismo; ou simplesmente caem para o submundo da miséria, da fome da marginalidade.

É a todas essas pessoas que iremos pregar o Evangelho, pessoas sacrificadas ao altar do Capital, submissas ao mando do seu profeta, o Mercado. Pessoas sem compaixão, porque acreditam que a competitividade é o melhor meio de eliminar a pobreza e o sofrimento humano. Pessoas sem compaixão, porque são vítimas sacrificiais de uma economia perversa, e se tornaram brutalizadas pelo sofrimento. Neste contexto, o segundo grande desafio para a Igreja é a vida de compaixão!

Compaixão e solidariedade na proclamação do Evangelho
Precisamos de compaixão e solidariedade para proclamar o Evangelho! Ao olhar para as pessoas e para as multidões de seus dias, Jesus as via como “ovelhas sem pastor” e demonstrava-lhes compaixão. A compaixão (solidariedade) era o motor de suas ações a favor das pessoas (v. Mt 9,36; 14,14; 15,32; 20,34; Mc 6,34; 8,2; Lc 7,13, etc.). Jesus demonstrava, através de seus atos, a compaixão de Deus pelos seus filhos e filhas escravizados ao pecado; demonstrava a solidariedade do Deus encarnado para com a humanidade pecadora (cf. Hb 2,14-17; 4,15-16). Para pregar o Evangelho não posso ver o “outro” como adversário – a batalha espiritual não pode gerar inimigos, mas, sim, pessoas reconciliadas com Deus e, conseqüentemente conosco e com elas mesmas – geramos, com a pregação do Evangelho, amigos e amigas de Jesus Cristo (15,14-15). Para pregarmos o Evangelho precisamos resistir à tendência desumanizadora e brutalizante de nossa sociedade pós-moderna; precisamos resistir à tentação de vivermos apenas em função de nós mesmos e de nossos interesses e desejos. Precisamos de solidariedade, compaixão: sentir o sofrimento do outro, como o nosso próprio sofrimento. Participar na libertação do outro, como se a nossa própria libertação disso dependesse.

Se somos amigos e amigas de Cristo, fazemos o que Ele manda. E o que Ele manda? “Eu vos escolhi para irdes produzir frutos e para que o vosso fruto permaneça ... O que eu vos ordeno é que vos ameis uns aos outros” (Jo 15,16-17). A Igreja existe para anunciar o Evangelho – essa é a grande comissão de Jesus (Mt 28,18-20 e paralelos), e esse é o poder do Espírito (At 1,8) – e se ela não o faz, deixa de ser povo de Deus, e se identifica com o mundo; torna-se sal sem sabor, não prestando para nada. O maior adversário da proclamação do Evangelho na pós-modernidade não é Satanás, mas a falta de compaixão, a falta de solidariedade para com os pecadores, a falta de amor uns para com os outros.

O problema da evangelização não está nas técnicas, nos projetos, nas estratégias, nos recursos financeiros. Há muitas formas diferentes de se evangelizar e fazer missões. O problema é que não temos recursos humanos. Não temos crentes dispostos a viver compassiva e solidariamente, fazendo da pregação do Evangelho uma parte natural de seu dia-a-dia. Deus chama a Seu povo, nestes dias do mundo pós-moderno, para viver em compaixão e solidariedade para com os pecadores e pecadoras de nosso tempo. Sejamos solidários com os pobres e excluídos que clamam por socorro. A partir dessa solidariedade, tenhamos compaixão de todas as pessoas. Anunciemos, com toda força de nossos pulmões, o Evangelho de Jesus Cristo, a boa notícia de que Deus reina e pode mudar a vida das pessoas e das nações!

Compaixão e solidariedade na diaconia cristã
Assim como Jesus fez acompanhar sua pregação de sinais visíveis do amor de Deus pelos pecadores, também a Igreja compassiva, na pós-modernidade, fará sua pregação da salvação ser acompanhada dos sinais do Reino. Quem ama, é compassivo e solidário com a pessoa toda, não faz divisão entre “alma” e “corpo”, pregando para salvar “a alma” e deixar o “corpo” morrer. Jesus cuidava das doenças do corpo, das doenças espirituais, dos problemas econômicos e sociais. Paulo, o evangelista aos gentios, recebeu a recomendação de “nos lembrar dos pobres, o que eu tive muito cuidado de fazer” (Gl 2,10). A diaconia cristã é a expressão concreta da compaixão evangelizadora da Igreja. A diaconia é o meio pelo qual a Igreja pratica as boas-obras para as quais cada cristão foi chamado por Deus (Ef 2,10).

Na pós-modernidade, precisamos discernir quais são as boas-obras mais urgentes, ou quais as formas mais importantes de ação diaconal. No âmbito da economia, por exemplo, a esmola já perdeu a sua eficácia (que tinha em períodos muito antigos na história econômica da humanidade). O socorro econômico através da esmola é insuficiente para livrar os pobres da miséria. É preciso ações mais eficazes. Por exemplo: projetos sociais de capacitação profissional, projetos sociais de desenvolvimento comunitário; movimentos sociais de luta contra o desemprego, contra a fome; movimentos políticos pela adoção de mecanismos de defesa econômica dos cidadãos, garantidos pelo Estado – por exemplo: renda mínima, salário educação, etc.

No âmbito da saúde, é preciso também atuar através de projetos de desenvolvimento (ambulatórios, clínicas voluntárias, etc.), e de movimentos sociais e políticos (campanhas contra certos tipos de câncer, instituições especializadas no atendimento a certos tipos de doenças e deficiências, etc.; movimentos políticos que visem forçar o Estado a cumprir as metas de saúde pública mínimas para garantir a dignidade dos cidadãos). No âmbito da cultura, é preciso que as Igrejas atuem no despertamento de formas criativas de ação cultural – seja na música, no teatro, nas artes plásticas, na literatura, etc. É importante atuar em movimentos que visem o controle, pela sociedade, dos bens culturais produzidos e difundidos pelos meios de comunicação de massa (TV, rádio, cinema, etc.).

Em uma palavra, é preciso que a Igreja atue de forma a contribuir para que a cidadania seja uma verdade prática, e não apenas um direito constitucional. Para que a mensagem do Reino pregada pela Igreja seja entendida, é necessário que a Igreja demonstre os sinais do Reino através de sua vida e da vida de seus membros. Na pós-modernidade, em que a pessoa só é vista como consumidora, ou como produtora de bens, precisamos ajudar a resgatar a condição cidadã das pessoas, com todas as implicações sociais, econômicas e políticas da cidadania. Como cidadãos do Reino de Deus, somos chamados a lutar para sermos cidadãos de um país justo e livre e para demonstrar solidariedade plena para com os não-cidadãos! Para isso o Espírito que ungiu Jesus, também pode nos ungir (cf. Lc 4,18-21; 7,18-23)

Conclusão
A pós-modernidade apresenta à Igreja problemas e oportunidades imensos. Para superar os problemas e aproveitar as oportunidades, precisamos do discernimento do Espírito e da compaixão de Jesus. Por isso, o primeiro desafio da missão da Igreja na pós-modernidade é a qualificação da Igreja como povo de pessoas cheias do Espírito Santo, que sabem discernir e ser solidárias. Como povo de ministros e ministras de Deus, discernindo a vontade de Deus e sendo solidários com os pecadores, atuaremos no mundo como testemunhas de Jesus Cristo. Nossa pregação e nossas obras demonstrarão verdade e o caminho do Reino de Deus, e farão com que as pessoas desejem servir a Cristo e não a Mamon!

Julio Paulo Tavares Zabatiero - Doutor em Teologia - Escola Superior de Teologia (Sâo Leopoldo; Professor nas áreas de Bíblia e Teologia Pública na FTSA;Pastor da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil

Foto: pixabay

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