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Sou professor há 10 anos. Mas devo confessar a vocês que, para mim, cada nova turma, cada nova oportunidade de ofertar minhas disciplinas (que nunca são, nem nunca foram, “apenas minhas”), é um desafio diferente.

Nunca sei a que tipo de questionamentos terei de responder, e, mais do que isso, é também um fascínio poder aprender e em certos momentos ser corrigido por vocês também. Disse que sou professor, mas na verdade não sou realmente, e sim estou me fazendo e refazendo “professor” a cada dia, na consciência de que não posso ser apenas mestre, mas também aluno, não apenas ensinador, mas aprendiz. Não se trata de mera retórica nem demagogia. Realmente tento levar a sério isto que estou relatando. Mas isso significa, antes de tudo, permitir ser interpelado, sem grandes reservas, por meus estudantes, por vocês.

Por isso, me alegra profundamente quando, vez por outra, me deparo com testemunhos de que as disciplinas que leciono estão ajudando-os a repensar a vida e os conceitos pré-adquiridos, pois esse é meu papel aqui: mais que satisfazer a fome por “respostas”, é provocar a fome de pensar! Não pensar como eu penso, pois – como já devem ter percebido os/as que, perto ou longe, comigo caminham – não omito meus posicionamentos sobre o que quer que seja, embora também não tenha, e também não esconda não ter, quando é o caso, “aquela velha opinião formada sobre tudo”. Se não sei eu digo e pronto – às vezes é um choque, é verdade, mas a turma acaba se acostumando. Mas isso, de forma alguma, quer dizer que pretendo forçá-los/as a pensar do mesmo modo, e sim instigá-los/as a pensar por si mesmos/as.

Alguns colegas de profissão condenam essa posição, pois entendem que isso só se pode atingir através da “neutralidade estratégica” do/a professor/a, ao demonstrar vários pontos de vista sobre um tema “X”, menos o seu. Respeito quem pensa assim e até acho que isso pode funcionar em certos casos – em alguns momentos isolados, até eu mesmo apliquei. Mas na maioria das vezes, prefiro deixar claro aos estudantes que não “fujo da raia” no momento de expressar o que penso, de oferecer meus próprios juízos sobre os assuntos, com a consciência de que, no instante em que os expresso com uma mão, devo ao mesmo tempo estender a outra num gesto convidativo para que o outro, o companheiro de embates e debates na vida e no pensar, possa também expressar os seus com liberdade e sem medo de ser julgado. Sem essa via de mão dupla, o que temos, lembrando aqui de Paulo Freire, não é um processo libertador e sim uma educação bancária, em que o professor, dono e senhor do saber repetido, deposita (para não dizer “vomita”) conhecimentos em suas “urnas” ambulantes, seus alunos e alunas.

Jesus, antes de Freire e dos “avanços” da educação moderna, também nos legou o exemplo de que o mestre é aquele que se coloca não acima, nem abaixo do aprendiz, mas ao lado, como co-caminhante com ele/a. Como, por exemplo, na situação em que ele se pôs a caminhar com aqueles dois discípulos a caminho da aldeia de Emaús (Lc 24.13-35), e, tão lindamente humano e divino ao mesmo tempo, como um “professor de espantos” (Rubem Alves) pôs-se a fazer perguntas àqueles que lamentavam sua morte sem, no entanto, se dar conta que ele estava ali, vivo e andando ao lado deles; ele não interrompeu a fala daqueles dois, mas proporcionou um espaço seguro para que eles pudessem contar sua história e expor sua visão das circunstâncias. Depois de ouvir, ele contou outra vez a mesma história, acrescentando outros detalhes que os dois haviam omitido ou se esquecido e que faziam toda a diferença na interpretação daquela trágica situação. Aos poucos, o estranho foi se fazendo familiar, ao ponto de eles não permitirem que ele fosse embora. “Fica conosco”, disseram eles. Queriam mais, estavam sedentos por mais. Pois ele fez seus corações empedernidos arderem de novo. Jesus era esse tipo de mestre: depois de fazer os neurônios queimarem com perguntas cruciais, era capaz de proporcionalmente fazer os corações arderem. “E disseram um ao outro: Porventura não nos ardia o coração, quando ele, pelo caminho, nos falava, quando nos expunha as Escrituras”? (Lc 24.32).

Sei que ainda estou longe de me parecer com Jesus nesse sentido e em tantos outros. Sobre tantas coisas, devo confessar, ainda nutro aquela velha e ridícula síndrome de tentar “ser original”. Mas nesse caso é completamente diferente: eu quero mesmo é ser um bom imitador, para que, quem sabe um dia (e sem nenhuma espécie de soberba no coração), como o apóstolo Paulo, também possa dizer: “Sede meus imitadores como também eu sou de Cristo”!
Nele, nosso Senhor, Pai e Professor.

Jonathan Menezes é Doutorando em História pela UNESP - Mestre em História Social pela Universidade Estadual de Londrina - Leciona disciplinas na área de Análise da Realidade - Pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil