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Hoje se fala muito de igreja missional, visão missional, e também de uma hermenêutica missional ou um modo missional de ler a Bíblia. Um bom exemplo disso é a Bíblia Missionária de Estudo que teve participação de docentes da FTSA. A principal proposta dessa leitura é ler a Bíblia não em busca de textos-prova para fundamentar a missão, mas tendo a missão como lente ou perspectiva de leitura.

Há alguns anos um grupo de missiólogos e biblistas se reúnem anualmente para debater o assunto e formaram um fórum chamado Gospel and Our Culture Network (GOCN) [Rede do evangelho e nossa cultura]. Diante das diversas discussões e propostas ao longo dos anos, um dos coordenadores do fórum, George Hunsberger, um missiólogo norte-americano, propõe que uma leitura missional precisa ser composta de quatro “correntes de ênfases”: estrutura, objetivo, ponto de aproximação, matriz. As duas primeiras ênfases dizem respeito ao modo de tratar o texto bíbilco e as duas últimas ao contexto do leitor.

A leitura missional da Bíblia precisa levar em conta a estrutura canônica e literária da Bíbia. Diversos missiólogos e biblistas têm chamado a atenção para a importância de se dar atenção para a narrativa bíblica, ou a “grande narrativa” conforme descreve Christopher Wright em seu livro Missão de Deus: desvendando a grande narrativa da Bíblia. Isso significa ir além de selecionar textos aqui e ali para dizer que a missão é bíblica.

A leitura missional da Bíblia também precisa identificar o objetivo dos escritos bíblicos. Hunsberger, citando Darrell Guder defende que o objetivo dos escritos bíblicos é equipar os cristãos para o testemunho do evangelho. Porém, acho que mais do que isso, defendo que o propósito ou objetivo dos escritos bíblicos é proclamar a presença de Deus e resgatar essa presença de diversas maneiras.

A leitura missional da Bíblia também precisa levar em conta o ponto de aproximação ou localidade da comunidade de fé. Hunsberger usa o termo abordagem (inglês, approach), mas se refere ao lugar da comunidade. Significa ler a Bíblia a partir das problemáticas e desafios contextuais da comunidade com intenção missional para fazer diferença nesse ambiente. Embora ele não cite o ciclo hermenêutico, a proposta se assemelha muito a ele. Ler a Bíblia a partir da realidade para obter uma nova compreensão não só da Bíblia mas da própria realidade, a fim de se despertar para uma nova ação ou engajamento missionário, a partir do qual se lê a Bíblia, e assim por diante.

Finalmente, a leitura missional da Bíblia parte de uma matriz, isto é, uma tradição teológica e bíblica recebida em diálogo com a cultura. Hunsberger fala de engajamento missional com a cultura. Ele sugere que foi isso que os autores do Novo Testamento fizeram ao interpretar a tradição teológica recebida do Antigo Testamento para os desafios e o engajamento cultural. Uma leitura missional dialoga com a cultura e reinterpreta a tradição recebida.

De certo modo, não só os autores do Novo Testamento, mas os profetas do Antigo Testamento fizeram isso ao olhar para os problemas de sua época à luz da Lei, da Torá, e não só confrontar seus contemporâneos com as ordenanças, mas reinterpretar as ordenanças à luz dos desafios culturais.

Uma leitura missional da Bíblia precisa tanto de uma atenção ao texto bíblico quanto ao contexto e cultura contemporânea.

William (Billy) Lane é pastor presbiteriano, doutor em Antigo Testamento e diretor acadêmico da Faculdade Teológica Sul-Americana.