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por Vanessa Carvalho de Mello¹ 
e Elizabete Sarábia Luquetti²

A reflexão sobre Deus e a violência contra as mulheres na Bíblia, se apresenta em forma de manifesto contra todo e qualquer tipo de violência contra os seres humanos ocorrida em todas as dimensões e estruturas da sociedade.

Em muitas narrativas onde a mulher sofre algum tipo de violência, há um silêncio que está detrás do texto, um silêncio problematizador que aponta para um pano de fundo cultural e para um imaginário social que precisa ser explorado suspeitosamente pelas lentes teológicas.

A religião e a teologia têm uma responsabilidade importante no processo de redefinição do que se entende como violência contra a mulher na Bíblia, pois há uma necessidade fundamental de se compreender que um drama pessoal é também um problema político, e que interpretar certas narrativas como algo circunstancial e não passar a entendê-las com uma questão política, que possui relação direta com as estruturas de poder do sistema social e patriarcal, é um grande problema de interpretação.

A interpretação bíblica também não deve resumir-se apenas numa questão acadêmica, mais que isso, deve assumir responsabilidades éticas para o aqui e o agora. Ulrich Luz (1994, p. 33), comentarista do Evangelho de Mateus, ao definir o problema reducionista das interpretações dos textos bíblicos diz o seguinte:

[...] a história de efeito exclui a possibilidade de separar os textos ou suas interpretações de suas consequências históricas. Nos previne contra o simples literalismo interpretativo e nos ajuda a evitar a separação de meras verdades teológicas das verdades concretas e históricas (tradução minha).

A teologia feminista latino-americana relata que a desconfiança em relação às mulheres parece manifesta em muitos textos do Antigo e Novo Testamento. É como se o testemunho feminino precisasse ser testado para ser acreditado ou fosse indigno de credibilidade imediata. Neste caso, fica evidente que o problema da desconfiança tem a ver com a visão patriarcal hierárquica do mundo.

O protagonismo feminino sempre foi interpretado como transgressor da ordem divina e tentador do homem. Discorrer sobre tal inconveniente e apontar para uma nova hermenêutica é o que a teologia feminista latino-americana tem feito a partir de grandes pensadoras como Ivone Gebara (1994, p.100), que, em sua obra Teologia em ritmo de mulher, afirma o seguinte: “[...] tudo isso justifica a tarefa de reler as Escrituras a partir de um centro hermenêutico igualitário, fundado numa nova antropologia”.

Quando se observa as relações que são construídas e mantidas entre homens e mulheres dentro do contexto religioso, pode-se dizer que estas possuem uma origem na própria interpretação das escrituras, ou seja, uma vez que a Bíblia se apresenta como Palavra sagrada de Deus, ela se torna o princípio que justifica o modo como as relações entre homem e mulher devem ser mantidas. No entanto, o problema que surge nesse mecanismo é que a intepretação feita por muitos coloca a mulher em uma relação de vulnerabilidade frente à violência. Sendo assim, a Bíblia sacraliza as relações de violência contra a mulher e isso se replica na vida da igreja. Portanto, o problema que se impõe é: como é possível romper este mecanismo de violência e ainda manter a sacralidade da Escritura?

Sem sombra de dúvidas, o impacto nocivo da rasa compreensão dos textos bíblicos no imaginário social é assustador. Considerando o imaginário social a partir da capacidade que o ser humano tem de perceber o universo de sentido que lhe diz quem ele(a) é, e qual o seu lugar na sociedade em que vive, fica evidente que a personagem da mulher pecadora, ameaçadora e sedutora nas Escrituras Sagradas sempre ocupa os primeiros lugares no imaginário social, imaginário este representado pelos efeitos de uma herança sexista e patriarcal.

A violência contra as mulheres nos dias de hoje, ainda que em meio a um universo de tantas outras violências, apresenta formas específicas de legitimação precisamente por sua condição de ser mulher. Esta legitimação procede da conceituação das mulheres como seres inferiores e propriedade dos varões, herança cruel propagada pela interpretação inadequada de textos sagrados. Tal legitimação social encontra um reforço crucial nos discursos religiosos que apresentam as mulheres como as personagens más, pecadoras e perigosas; não é preciso ir muito longe, basta lembrar do fenômeno de violência coletiva que ocorria com as queimadas das bruxas ou melhor dito, a caça às bruxas, que foi um movimento de perseguição religiosa e social às mulheres iniciado no século XV.

Com a chegada da sociedade moderna, fatores diversos contribuíram paulatinamente para a deslegitimação da violência como meio para resolver conflitos, como forma de relação entre os indivíduos, grupos sociais e nações. De acordo com Luiza Posada (2001), a violência contra as mulheres entra como referente normativo no discurso da modernidade.
No entanto, num retorno aos relatos dos evangelhos, aparece Jesus se relacionando com as mulheres a partir de uma nova concepção de mundo em relação ao lugar e a dignidade delas. Jesus foi muito ousado para o contexto social de sua época, pois agiu de modo que proporcionou um rompimento no machismo e patriarcalismo tão arraigado na visão de mundo de seus contemporâneos.

Alzira Gomes Machado (2016, p. 27), ao salientar o relacionamento não violento de Jesus com as mulheres, comenta que:

Jesus foi muito ousado para o contexto social de sua época, rompendo com um machismo e patriarcalismo tão arraigado, possibilitando que mulheres o seguissem na qualidade de discípulas, enfrentando a cultura machista eminente em toda a sociedade. É atitude de quem tem coragem de romper com o estabelecido, propondo novas relações. Essa foi uma constante na prática de Jesus.

Jesus não estabeleceu somente uma relação de respeito com as mulheres de ajuda e de cuidado, Ele aprendeu com elas e até dependeu delas – basta lembrar aqui de Joana, esposa de Cuza, responsável pela residência de Antipas (o tetrarca da Galileia), que foi curada por Jesus, tornando-se seguidora dele e ajudando a manter financeiramente seu ministério. Através de sua relação com mulheres como Joana, Jesus explorou corajosa e incisivamente um dos grandes problemas da cultura patriarcal: a síndrome da superioridade masculina, portanto, a luta para que as mulheres sejam tratadas como seres humanos com direito à vida, à liberdade e ao envolvimento nas áreas culturais e políticas; foi também, a luta de Jesus, que lutou e tem lutado até hoje, através de nós, para que as mulheres sejam vistas e tenham seu lugar de fala e atuação respeitado.

Buscar nas práticas de Jesus a inspiração para as nossas práticas é lutar junto com Ele para que uma nova ordem nas relações com as mulheres se estabeleça, inaugurando experiências de valorização e protagonismo. Que a graça do encontro com as mulheres vítimas de violência, em torno da mesa da irmandade, venha sobre nós, para que juntos possamos festejar e celebrar a beleza da vida!


[1] Docente da FTSA e responsável pelo NADi.
[2] Discente de teologia da FTSA, orientanda da professora Vanessa Carvalho de Mello.
 
Referências bibliográficas
COLOMBO, A.B. ¿Cain, dónde está tu hermana? Dios y la violencia contra las mujeres. España: Verbo Divino, 2017.
GIRARD, R. A violência e o sagrado. Trad. Martha Conceição Gambini; revisão técnica Edgard de Assis Carvalho. São Paulo: Paz e Terra, 2008.
LUZ, U. Matthew in history: interpretation, inlfuence, and effects. Mineápolis: Fortress Press, 1994.
MACHADO, A. Basta de violência contra as mulheres. São Leopoldo: CEBI, 2016.
POSADA, L. (2001), “’Las hijas deben ser siempre sumisas’ (Rousseau). Discurso patriarcal y violencia contra las mujeres: reflexiones desde la teoría feminista”, en BERNÁRDEZ, A. (ed.) Violencia de género y sociedad: una cuestión de poder. 2001.