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É cada vez mais crescente a presença de notícias a respeito da crise ecológica e dos gritos por uma reorientação do ser humano para com o planeta Terra. Se há alguns anos essa parecia ser uma discussão distante, ou um bom tema para enredos de filmes sensacionalistas, hoje começamos a sentir de forma mais intensa os efeitos dessa crise. Não apenas cientistas, mas autoridades políticas do mundo inteiro estão se debruçando sobre o tema em busca de caminhos alternativos que viabilizem a vida no planeta. Por que demoramos tanto para perceber os perigos advindos de uma atuação irresponsável na vivência no planeta?

São várias as possibilidades de resposta. Pontuemos duas. Em primeiro lugar, a relação do ser humano com a natureza. Esta, por muito tempo foi vista como uma zona neutra, não se constituindo num domínio eticamente significativo. Em segundo lugar, a própria concepção moderna que está na base de grande parte do desenvolvimento científico dos últimos séculos. Esta concepção vê a natureza apenas como um estoque de matéria e energia a disposição do domínio e exploração pelo ser humano. Essa relação se deu com base no interesse de dominação do humano sobre a natureza com vistas a atender seus projetos técnicos, um olhar antropocêntrico para com a natureza.

Nos tempos modernos, verificou-se um notável excesso antropocêntrico, que hoje, com outra roupagem, continua a minar toda a referência a algo de comum e qualquer tentativa de reforçar os laços sociais. Por isso, chegou a hora de prestar novamente atenção à realidade com os limites que a mesma impõe e que, por sua vez, constituem a possibilidade dum desenvolvimento humano e social mais saudável e fecundo. Uma apresentação inadequada da antropologia cristã acabou por promover uma concepção errada da relação do ser humano com o mundo. Muitas vezes foi transmitido um sonho prometeico de domínio sobre o mundo, que provocou a impressão de que o cuidado da natureza fosse actividade de fracos. Mas a interpretação correcta do conceito de ser humano como senhor do universo é entendê-lo no sentido de administrador responsável (Papa Francisco, Laudato si)

A belíssima Encíclica Laudato si, do Papa Francisco, que reflete sobre o cuidado para com a criação, assinala uma relação entre o antropocentrismo e uma apresentação inadequada de doutrinas cristãs. Essa situação aponta para necessidade de refletirmos sobre o conceito de criação à luz dos saberes científicos atuais e das situações concretas que estamos vivendo. Sem uma visão crítica — e é claro somos filhos do nosso tempo — nos tornamos incapazes de repensar a nossa prática a partir de uma melhor definição de doutrinas cristãs fundamentais. No que tange à doutrina cristã da criação, esta se apresenta como uma chave de leitura imprescindível para pensarmos a relação do ser humano com o planeta Terra, para além de uma visão antropocêntrica.

Comecemos com o texto bíblico. Já nas primeiras páginas somos informados que Deus é criador (Gn 1:1), e que sua criação é “muito boa” (Gn 1:10, 21, 25, 31). Nessa terra ele cria espaços de vida, e os povoa de seres vivos. Assim, Deus faz da terra um lugar fértil e próprio para o desenvolvimento da vida. Cria o ser humano à sua imagem e semelhança e lhe confere responsabilidades ante toda a criação (Gn 1:26-28). As narrações do Gênesis sugerem quatro relações fundamentais sobre as quais se baseia a existência humana: as relações com Deus, consigo mesmo, com o próximo e com a natureza. O pecado rompeu essas relações, distorcendo-as (Gn 3:10-12; 4:10; 6:5). Esboçando os caminhos para uma visão não antropocêntrica, Moltmann pontua que

Toda teologia parte da ideia de que nem o ser humano nem a natureza, mas Deus é o centro do mundo que representa sua criação. Desse modo, a relação homem-natureza é descentralizada. Em reconhecimento ao seu criador, os seres humanos e todos os outros seres naturais se compreendem como “cocriaturas” de uma comunidade da criação. Isso se expressa da melhor forma na aliança de Noé: “De minha parte, vou estabelecer minha aliança convosco e com vossa descendência, e com todos os seres vivos” (Gn 9.9-10) [...]. A aliança de Deus com todos os seres vivos constitui a comunidade da criação em que devem ser formulados os diretos fundamentais da criação e dos seres humanos. Toda comunidade humana é também uma comunidade com a natureza. Por isso, a natureza envolvida tem o direito à proteção de seus direitos intrínsecos no marco dessa comunidade humana (MOLTMANN, 2012, p. 171-172)

A fim de precisarmos melhor como a doutrina cristã da criação pode contribuir para uma tomada de consciência frente a atual crise da casa comum, detalhemos, em primeiro lugar, alguns aspectos da crise ecológica atual. Quando falamos de crise ecológica, talvez a primeira coisa que nos venha à mente seja a mudança climática. Sim, a expansão da civilização tecno-científica está contribuindo significativamente para a mudança do clima na terra. Porém, não é só isso. Falamos aqui também da poluição dos rios, pelo escoamento de rejeitos químicos ou esgotos não tratados e outros meios. Falamos da perda da biodiversidade, diretamente relacionada a ação predatória do ser humano. Falamos da deterioração da qualidade da vida humana. E por fim, falamos também das consequências sociais.

Diante desse cenário o evangelho da criação não é apenas uma palavra de julgamento, mas também a inspiração para novos caminhos e formas de relacionamento. Não uma esperança que nos deixa inertes, mas uma mensagem que nos leva a “esperançar”. À luz dos múltiplos aspectos da atual crise ecológica, a Laudato si nos convida a refletir a partir de uma ecologia integral, que inclua tanto as dimensões humanas quanto sociais. Assim, uma ecoética – um neologismo que faz referência a uma ética ecológica e que nos coloca diante das questões éticas referentes ao cuidado da nossa casa comum – deverá levar em consideração tanto aspectos ambientais, quanto os econômicos e sociais, pois a responsabilidade humana com a casa comum vai além das nossas ações individuais e pontuais.

BIBLIOGRAFIA
MOLTMANN, Jürgen. Ética da esperança. Petrópolis: Vozes, 2012

por Cezar Flora, professor na FTSA e auxiliar de coordenação na graduação e pós-graduação presenciais