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Editorial da Revista Práxis  Evagnélica da FTSA, nº29
500 anos depois: de volta ao ‘princípio protestante’

Neste ano de 2017 celebramos os 500 anos da Reforma Protestante, rememorando, sobretudo, o dia 31 de outubro de 1517, data em que Martinho Lutero publicou suas 95 teses contra os desmandos e abusos do papado na Igreja Romana, da qual fazia parte e, é preciso lembrar, da qual nunca pretendeu se separar.

Esta edição especial de número 29 da Práxis nasce, portanto, do intento de relembrar e celebrar alguns dos ditos e feitos dos reformadores – em especial os de Lutero – sim, mais com criticidade (como a prática “protestante” exige). Pois o principal legado da Reforma não foram as expressões eclesiásticas e teológico-doutrinárias dela derivadas, e sim o resgate de um princípio do Evangelho, que Paul Tillich apropriadamente chamou de “princípio protestante”.

De acordo com Tillich, este princípio tomou forma, por exemplo, na luta de Lutero pela justificação pela graça e através da fé “somente”. Nesse sentido, a “justificação” – tema do artigo iluminador de Jorge Daniel Schulz, o quinto deste número – pode ser vista como “o paradoxo de que o homem, o pecador, é justificado; de que o homem injusto se torna justo; de que o homem não-santo sendo declarado santo, a saber, no julgamento de Deus, que não se baseia em nenhum feito humano, mas na divina e redentora graça” (Tillich, 1948, p. 170-171). Onde quer que esse princípio seja compreendido, aceito e praticado, emergirá um protesto contra ideologias (incluindo as religiosas) que afirmem a autossuficiência humana – ainda que atribuindo “suficiência” à graça, como acontece.

Relembrar e celebrar 500 anos de protestantismo, portanto, é não apenas celebrar o “ser protestante” em si, mas também perguntar o que primordialmente fez deste protestantismo “protestante”? Na visão de Tillich (1948, p. 162), a resposta está no fato de que “ele transcende seu próprio caráter religioso e confessional, e de que ele não pode ser inteiramente identificado com quaisquer de suas formas particulares”. Em outras palavras, o que faz do protestantismo “protestante” é o fato de ele não ser luterano, nem zungliano, calvinista, anglicano, anabatista e assim por diante. Pois o protestantismo é movido incondicionalmente por um princípio que transcende suas expressões históricas (denominacionais, teológicas ou doutrinárias). A luta de Lutero não foi para que a Igreja deixasse de ser “Católica” e passasse a ser “Luterana” ou “Reformada”, e sim para que atentasse de novo ao Evangelho e voltasse a ser Igreja de Cristo. Neste princípio está contido “o protesto divino e humano contra qualquer reivindicação absoluta feita por uma realidade relativa, mesmo tendo sido ela feita por uma igreja protestante” (Ibid.).

Assim, o princípio protestante tem o papel profético de denunciar a idolatria, a arrogância e o orgulho religioso de quem se coloca na categoria de semideus, ou de quem ousa referir-se a si mesmo (ou à expressão necessariamente condicional de seu pensamento ou ação) em letras maiúsculas. Ele desnuda, portanto, “qualquer tentativa do finito e do condicional de usurpar o lugar do incondicional no pensamento e na ação” (Tillich, 1948, p. 163). Essa relação entre o condicional e o incondicional estava quase totalmente deturpada pela Igreja e seus líderes no tempo em que o protestantismo emergiu como protesto contra essa realidade, mas também acabou sendo, posteriormente, perpetuada dentro do próprio protestantismo, especialmente no tocante ao poder. A segregação clero-laicato, por exemplo, foi seguramente um dos principais alvos do protesto de Lutero, ao evocar a linguagem bíblica do “sacerdócio universal de todos os crentes”. Ou seja, Cristo é o sumo-sacerdote e único cabeça da Igreja e, como tal, ele constituiu seu povo como uma “nação de sacerdotes”, no meio da qual até existe a função “sacerdote”, mas esta não deve ter proeminência sobre as demais.

Quantos exemplos seriam necessários para mostrar o fato óbvio (e conhecido de todos) de que o protestantismo, tanto quanto o catolicismo, errou feio neste ponto? O rótulo “protestante” é completamente esvaziado de sentido quando igrejas protestantes não se permitem ser confrontadas por seu próprio princípio. Rememorar e conservar a tradição reformada (mesmo no marco de seus 500 anos) sem levar devidamente a sério seu princípio motivador é tão absurdo quanto desejar praticar mergulho sem se molhar. Esse é precisamente o ponto de Daniel Amorin Rodrigues Júnior no último artigo deste dossiê, “Da Reforma ao puxadinho”, em que procura identificar o que chama de “práticas medievais”, tais como a remasterização contemporânea da venda de indulgências representada pela mercantilização da fé, ou os abusos de poder eclesiástico no seio das igrejas oriundas do movimento protestante (o que não significa que sejam radicalmente protestantes). Por essas e por outras é que o protestantismo pode prosseguir vivo do ponto de vista institucional, mas morto em sua razão de existir. O importante, como nos lembra Tillich, é que o “princípio protestante” é imortal, porque é um princípio do Evangelho.

Diante das comemorações dos 500 anos em todo o Brasil, em que a Reforma é celebrada e lembrada, sobretudo, por seu vanguardismo e transformação da história, pergunto aos leitores: no espírito do “princípio protestante”, como devemos lembrar a Reforma? Uma reflexão conceitual, com apoio na filosofia da história, sobre o tema da comemoração pode ser útil na busca de uma resposta para essa pergunta. A partir dela pretendo apresentar os demais ensaios deste número.

De acordo com Frank Ankersmit (2001, p. 166), a comemoração não tem origem na natureza do passado em si, mas em elementos extra-históricos que são implementados no sentido de domesticar o passado – transformá-lo no passado que queremos. Ou seja, ela não se concentra na natureza do passado precisamente porque a lembrança vigente na comemoração é normalmente guiada por interesses (o que, em inglês, se dá o nome de bias): lembramos daquela parte do passado menos inconveniente e que, portanto, não irá “estragar a festa” – e o leitor, a essa altura e com certa razão, pode estar achando que é precisamente este o meu papel aqui (o de estragar a comemoração). Mas isso pode ser mais produtivo do que parece, como quero crer – e os artigos deste número devem demonstrar isso.

Para dar um exemplo, um ofício fúnebre é uma espécie de comemoração marcada pelo luto, a saudade e a dor que ficam pela partida do ente querido (bem, na maioria dos casos). Essa pessoa não existe mais exceto na memória de quem permanece aqui. E ao oficiar o passamento desta pessoa, é costumeiro que se traga à memória, sobretudo, o melhor ou a parte mais bonita dela – como, de igual modo, o defunto é embelezado para “a festa” de sua morte. Nesse sentido, o velório de alguém pode ser a forma menos trágica possível de lidar com a tragédia de seu falecimento, uma vez que se baseia na omissão (consciente ou não) de parte da realidade de quem ela foi. Por essa razão, Ankersmit afirma que talvez a comemoração seja:
O modo como, subconscientemente, tentamos nos livrar desta parte mais opressiva e indigesta de nosso passado [isto é, a comemoração urge-nos a uma lembrança seletiva (acréscimo meu)]. E se há alguma verdade nesta conjectura, a comemoração pode claramente ser o oposto do que discutimos na seção anterior [a saber, o oposto do “testemunho” (acréscimo meu)]. Pois o testemunho é uma “ressurreição do passado” ao modo de Michelet, enquanto a comemoração é a tentativa última de dominar o passado e rendê-lo como inócuo para sempre (Ankersmit, 2001, p. 166).

Como corolário, ainda prosseguindo com Ankersmit, “o que é comemorado perde sua prioridade lógica para a comemoração”, tornando-se, assim, um “simulacro sem vida daquilo que costumava ser” (Ankersmit, 2001, p. 167, 171). Então, de novo, como desejamos lembrar do protestantismo: ao modo da comemoração ou do testemunho (no sentido apresentado por Ankersmit)? O que queremos produzir: um “simulacro sem vida”, incoerente com o testemunho histórico, ou um “simulacro cheio de vida”, isto é, uma representação, por assim dizer, trágica da Reforma, porque acolhe e se inspira em suas virtudes, ao mesmo tempo em que reprova e não mascara seus defeitos? A intenção de meu diálogo com Ankersmit aqui é mostrar que, no presente número da Práxis, os artigos (em sua maioria) seguem a via do testemunho. Souberam tanto celebrar os ganhos, quanto evidenciar as lacunas e problemas. Desse modo, retorno aos artigos deste número sobre os quais ainda não tratei.

Wander Proença e Thaís Ayres apresentam um aporte mais histórico em seus artigos. Proença explora o papel da leitura em sua “leitura da Reforma”, demonstrando como a invenção prévia da imprensa e a disseminação de livros escritos pelos reformadores, começando pelos de Lutero, foi fundamental para a rápida expansão da Reforma e para a formação de novos leitores. Lembra, assim, o papel pedagógico que é tão peculiar à chamada “reforma magisterial”. Já Ayres segue uma linha semelhante à de Proença no sentido de que ambos trabalham com a noção de “circularidade”, do historiador italiano Carlo Ginzburg, para mostrar que a leitura não era um privilégio da chamada “cultura erudita”, mas também popular, de modo que houve um intercambio e circulação de ideias entre as diferentes classes. Isso ajudou a disseminar o Evangelho, como lado positivo, mas também os preconceitos que, desde o medievo, rondavam a relação entre os diferentes grupos sociais. Aí entra o papel crítico da pesquisa de Ayres (também comentado, em menor grau, por Proença) ao se concentrar sobre dois escritos de Lutero com opiniões diametralmente opostas sobre os judeus: uma primeira, mais caritativa e compreensiva, e a segunda, apenas reforçando preconceitos antigos disseminados contra esse povo. De qual Lutero devemos lembrar? Dos dois, é claro. Celebrar sua importância histórica não significa fazer vistas grossas para seus possíveis equívocos. Nem os seus, nem os de nenhum outro reformador. Eles foram heróis, sim, mas da raça adâmica: forjados do barro e partícipes da natureza caída. Agentes da graça de Deus, mas também carentes de arrependimento e perdão provenientes da mesma.

Billy Lane (assim como Jorge Daniel, já citado) explora um lado mais teológico da Reforma, não menos controverso e, ao mesmo tempo, enriquecedor, tratando da conhecida divergência entre Lutero e Zuínglio (reformador suíço) acerca da “presença de Cristo” na Santa Ceia. Apresenta o impasse entre os dois reformadores: enquanto Lutero acreditava que Cristo estava corporalmente presente nos elementos, Zuínglio entendia que ele estava presente apenas simbolicamente. O lado nenhum pouco óbvio da narrativa de Lane está precisamente em sua tentativa de aproximação dessas duas perspectivas, visando um aporte missional e pastoral contemporâneo. De modo surpreendente, o autor conclui que essa controvérsia pode representar um duplo aporte necessário à igreja contemporânea: proclamar o “Cristo espiritual” no sentido holístico da palavra, isto é, sem esquecer que esse mesmo Cristo, o Filho, se encarnou e, assim, conclama sua igreja a fazer o mesmo no exercício da dimensão pública e cidadã de sua fé. Isso é um exemplo do que podemos chamar aqui de “lembrança testemunhal”.

O mesmo modo testemunhal se pode observar na abordagem de Nicolás Panotto aos anabatistas, grupo usualmente deixado de fora das comemorações da Reforma – e não é menos relevante continuar perguntando as razões para tal “esquecimento”. Terão sido os anabatistas menos importantes (e menos protestantes) que seus irmãos reformados? Ou será que esse aparente esquecimento tem a ver precisamente com o fato de que milhares deles foram perseguidos e assassinados sob a anuência de muitos desses seus “irmãos”? Panotto não ignora essas questões. No entanto, o mote de seu artigo é mais propositivo e parte do mesmo ponto em que Lane finalizou o seu: falando da dimensão pública e política da Reforma, com foco na atuação sócio-política anabatista durante os acontecimentos dramáticos que envolveram sua história no século XVI. Panotto não a vê, porém, como uma proposta sistemática, mas ressalta como os elementos da identidade anabatista têm implicações políticas importantes, “desde uma dimensão ética e não institucional”, como declara o autor. Implicações que vão desde a vida interna da comunidade – uma hermenêutica bíblica comunitária, aliada à “centralidade da decisão dos sujeitos a partir do centro de sua fé” – até seu testemunho teológico e público, como a crítica à abstração do dogma e a construção de espaços de convivência e resistência em meio a um contexto de desgaste social. Finaliza provocando a reflexão e levantando questões sobre possíveis implicações do legado anabatista para a igreja evangélica latino-americana contemporânea.

A importância dessa dimensão social no pensamento bíblico e teológico, inspirado no “princípio protestante”, é também o foco do excelente artigo escrito a quatro mãos por Gedeão Chilumbo Abel e Vanessa Carvalho sobre “O cristão como interventor social”. O autor e a autora propõem uma releitura desta questão a partir do exemplo de Neemias, nos capítulos 1 e 2 de seu livro. Crítica e criativamente, propõem em sua releitura uma interpretação de Neemias que o aproxima dos princípios norteadores da Reforma, e que o diferencia do que conhecemos como mero ativista social. Apresentam-no como: (1) um interventor que intervém pela fé e dependência de Deus (sola Fide); (2) um interventor que intervém com os pés fincados na Palavra de Deus (sola Scriptura); (3) um interventor que intervém na dependência da graça de Deus (sola Gratia), posteriormente revelada de modo mais concreto na pessoa de Jesus Cristo (solus Christus).

Este número finaliza com duas resenhas que abordam a presença e importância de mulheres nos primórdios da Reforma: (1) Uma voz feminina na Reforma, de Rute Salviano Almeida; e (2) A primeira-dama da Reforma, de Ruth A. Tucker. O trabalho de Vanessa Carvalho aqui é fundamental, não apenas porque ela contribuiu em ambas as resenhas (em uma delas em colaboração com Adalberto Fraga, estudante da graduação presencial em teologia da FTSA), mas porque elas são resultado do projeto de iniciação científica sobre o papel da mulher (na igreja, na teologia e na sociedade) coordenado por ela neste ano de 2017. O testemunho das mulheres é tão importante quanto o dos homens, no passado e no presente. Oxalá não demoremos mais 500 anos para reconhecer e honrar isto.


Boa leitura!
Jonathan Menezes
(Editor)

Referências bibliográficas
ANKERSMIT, Frank. Historical Representation. Stanford: Stanford University Press, 2001.
TILLICH, Paul. The Protestant Era. Chicago, Illinois: University of Chicago Press, 1948.

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