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publicado em 04/06/2021

Em virtude do Dia Nacional do Pastor Evangélico, a ser comemorado anualmente no segundo domingo do mês de junho, Prof. Jorge H. Barro traz uma reflexão pertinente sobre o pastorado nos dias atuais. Confira!

 

O pastor como teólogo

Com o advento da internet, e especialmente com essa crise sanitária global proveniente do coronavírus, as divisas do cuidado pastoral, antes mais ou menos represadas no contexto da igreja, se arrebentaram e romperam as paredes da barragem. Tal como aquelas barragens de rejeitos se romperam sobre as cidades.

A internet deu vez e voz para as pessoas. Antes, elas ouviam prioritariamente seus pastores, em suas pregações, aulas da escola bíblica, nos aconselhamentos, nos estudos bíblicos em pequenos grupos... Hoje as pessoas da sua igreja bebem águas das mais variadas fontes.

Mas água não é água? Sim é, mas sua qualidade difere e muito das outras águas! Existem vários parâmetros para se aferir a qualidade de uma água, como os físicos (temperatura, sabor e odor, cor, turbidez, sólidos e condutividade elétrica), químicos (pH, alcalinidade, dureza da água, cloretos, ferro e manganês, nitrogênio, fósforo, fluoreto, oxigênio dissolvido), inorgânicos (metais pesados tóxicos ao ser humano) e orgânicos (resistentes à degradação biológica como agrotóxicos) e os parâmetros biológicos (coliformes fecais e algas). Tomar água contaminada pode acarretar diarreia, leptospirose, disenteria bacteriana, esquistossomose, febre tifoide, cólera, parasitoides e dengue. Em 2020 no Brasil, a contaminação da água foi responsável por 13.712 internações (fonte: https://www.eosconsultores.com.br/qualidade-da-agua).

Então, toda água é água de boa qualidade? As pessoas da sua igreja estão hoje “bebendo” das muitas águas disponíveis na internet como lives, vídeos, textos, livros, blogs etc. As barragens se romperam! É óbvio que muitas coisas boas surgem desse processo e que o cristão maduro pode muito ganhar para seu crescimento e desenvolvimento.

Também se rompeu a barragem do respeito relacional. Em função das polarizações políticas e ideológicas, as pessoas passaram também a participar e comentar as postagens das outras. Fico imaginando como você, pastor, se sente ao ver o modo como suas ovelhas participam nas mídias sociais. Parece que a participação nas mídias confere uma mentalidade de liberdade e disposição que pende para a ausência de limites, respeito, tolerância... Tudo isso revela o estado espiritual e emocional das pessoas. Mas também revela algo mais profundo, o estado de maturidade bíblica e teológica das pessoas. Se aproxima da Bíblia, nessas discussões nas mídias, não para pautar suas opiniões e reações, mas sim para usá-la como escudo e flecha contra os outros. Há um verdadeiro ataque entre cristãos nas mídias, que desrespeita e ignora a recomendação do apóstolo Paulo:

“Vivei, acima de tudo, por modo digno do evangelho de Cristo, para que, ou indo ver-vos ou estando ausente, ouça, no tocante a vós outros, que estais firmes em um só espírito, como uma só alma, lutando juntos pela fé evangélica” (Fp 1:27).

Por essas e outras razões, nós pastores precisamos de uma revisão ministerial que nos leve a discernir o lugar e o papel da teologia em nossos ministérios pastorais. É preciso entender e reconhecer que a teologia não está confinada nos três ou quatro anos dos seus estudos teológicos (e isso para quem fez) seja qual for a escola que estudou.

Trago apenas quatro desafios, dentre muitos, para que você repense seu pastorado.

 

1. Um pastor-teólogo entende a relação entre prática e conteúdo

É muito comum ouvir pastores dizendo que seu ministério é prático e não acadêmico. Isso não existe! Toda prática está fundamentada em conceitos. Qualquer ação expressa conteúdo. Resta saber se com conteúdo bom ou ruim. Seria o mesmo que dizer que só pratica o que Bíblia diz. Imagine praticar isso: “Feliz aquele que pegar teus filhos e esmagá-los contra a pedra” (Sl 137:9).

A teologia jamais deveria ocupar um lugar secundário na vida dos pastores. Para isso, dedique tempo para ler, estudar, refletir, apender, conhecer... É lindo e emocionante ver um pastor sintonizado com seu tempo, trazendo para o púlpito alimento sólido, histórias redentivas do amor de Deus, sinalizando caminhos para o povo de Deus possa seguir em esperança. Ser um pastor-teólogo é viver na encruzilhada do texto com o nosso contexto. Um pastor que pouco lê, pouco tem a dizer.

 

2. Um pastor-teólogo entende os tempos e épocas

A teologia não acontece no vácuo, do nada. Uma das expressões recorrentes nos profetas do Antigo Testamento é essa: “veio a palavra do Senhor” (Jr 1:2, 4, 11, 13; 2:1; Ez 3:16; 7:1; Jn 1:1; Ag 1:3; 2:20; Zc 4:8; 6:9). A palavra do Senhor vinha diante das situações, circunstâncias e eventos que estavam acontecendo. Um púlpito e educação cristã sem realismo e realidade conjuntural é desprovido de sentido para as pessoas.

Recomendo que você leve a sério o hoje, os fatos, os acontecimentos, os noticiários. A palavra do Senhor precisa vir para esses contextos. O tempo de Isaías, Jeremias, Paulo e Pedro eram outros. Deus nos chama para termos palavra para o nosso tempo. O que aconteceu no passado pode e deve iluminar nosso presente. Contudo, pastores que não sabem fazer pontes entre os tempos bíblicos e os tempos presentes precisam prestar atenção à hermenêutica!

 

3. Um pastor-teólogo entende o plano de Deus para o mundo

A reflexão teológica que não está a serviço da missão de Deus é um despropósito. A missiologia é a mãe da teologia. Não estudamos teologia por causa da teologia. Estudamos para entender e para desenvolver a missão de Deus no mundo. Sem missão, a teologia se trunca, disse Orlando Costas. Por isso, todo pastor deve ser um teólogo da missão. Uma igreja pode ter um púlpito e uma educação cristã altamente teológicos, mas sem vida e sem transformação da própria igreja e da sociedade. O ministério pastoral não é um fim em si mesmo; é um meio para equipar o povo de Deus para cumprir a missão de Deus!

Sem missão, o ministério pastoral pode usar as pessoas para seus alvos pessoais, dentre eles, a ascensão política-denominacional, privilégios, status, poder e coisas afins. Um pastor-teólogo é aquele que se submete ao senhorio de Cristo, a cabeça da igreja! (Ef 4:15; 5:23).

 

4. Um pastor-teólogo entende a importância de investir na qualidade da fé das pessoas

Nunca me esqueço, logo no início do meu ministério pastoral, quando ouvi essa recomendação de um pastor bem mais experiente que eu: “Olha, não é bom que seu povo aprenda muito, porque eles passam a questionar sua autoridade”. Ao ouvir tal recomendação, imediatamente pensei nessas palavras do apóstolo Paulo:

“Porque vós, irmãos, sabeis, pessoalmente, que a nossa estada entre vós não se tornou infrutífera; mas, apesar de maltratados e ultrajados em Filipos, como é do vosso conhecimento, tivemos ousada confiança em nosso Deus, para vos anunciar o evangelho de Deus, em meio a muita luta. Pois a nossa exortação não procede de engano, nem de impureza, nem se baseia em dolo; pelo contrário, visto que fomos aprovados por Deus, a ponto de nos confiar ele o evangelho, assim falamos, não para que agrademos a homens, e sim a Deus, que prova o nosso coração. A verdade é que nunca usamos de linguagem de bajulação, como sabeis, nem de intuitos gananciosos. Deus disto é testemunha. Também jamais andamos buscando glória de homens, nem de vós, nem de outros. Embora pudéssemos, como enviados de Cristo, exigir de vós a nossa manutenção, todavia, nos tornamos carinhosos entre vós, qual ama que acaricia os próprios filhos; assim, querendo-vos muito, estávamos prontos a oferecer-vos não somente o evangelho de Deus, mas, igualmente, a própria vida; por isso que vos tornastes muito amados de nós” (1 Ts 2:1-8).

A fé é qualificável! Pode parecer estranha essa afirmação porque alguém pode dizer que isso implica em algum tipo de julgamento ou critério. Veja quantas vezes Jesus falou sobre a qualidade da fé:

• “Ora, se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada no forno, quanto mais a vós outros, homens de pequena fé?” (Mt 6:30).
• “Ouvindo isto, admirou-se Jesus e disse aos que o seguiam: Em verdade vos afirmo que nem mesmo em Israel achei fé como esta” (Mt 8:10)
• “Então, disse Jesus ao centurião: Vai-te, e seja feito conforme a tua fé” (Mt 8:13).
• “Mas os discípulos vieram acordá-lo, clamando: Senhor, salva-nos! Perecemos! Perguntou-lhes, então, Jesus: Por que sois tímidos, homens de pequena fé?” (Mt 8:26)
• Reparando, porém, na força do vento, teve medo; e, começando a submergir, gritou: Salva-me, Senhor! E, prontamente, Jesus, estendendo a mão, tomou-o e lhe disse: Homem de pequena fé, por que duvidaste? (Mt 14:30-31).
• “Então, lhe disse Jesus: Ó mulher, grande é a tua fé! Faça-se contigo como queres. E, desde aquele momento, sua filha ficou sã” (Mt 15:28).
• “Eles, porém, discorriam entre si, dizendo: É porque não trouxemos pão. Percebendo-o Jesus, disse: Por que discorreis entre vós, homens de pequena fé, sobre o não terdes pão?” (Mt 16:7-8).
• “Então, os discípulos, aproximando-se de Jesus, perguntaram em particular: Por que motivo não pudemos nós expulsá-lo? E ele lhes respondeu: Por causa da pequenez da vossa fé. Pois em verdade vos digo que, se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a este monte: Passa daqui para acolá, e ele passará. Nada vos será impossível” (Mt 17:19-20).
• “Simão, Simão, eis que Satanás vos reclamou para vos peneirar como trigo! Eu, porém, roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; tu, pois, quando te converteres, fortalece os teus irmãos” (Lc 22:31-32).

A qualidade da fé está intimamente relacionada com o relacionamento da pessoa para com Deus e como também com o relacionamento da pessoa com a Palavra de Deus. A apóstolo Pedro disse:

“Despojando-vos, portanto, de toda maldade e dolo, de hipocrisias e invejas e de toda sorte de maledicências, desejai ardentemente, como crianças recém-nascidas, o genuíno leite espiritual, para que, por ele, vos seja dado crescimento para salvação, se é que já tendes a experiência de que o Senhor é bondoso” (1 Pe 2:1-3).

É preciso deixar esse estágio do leite espiritual “para que não mais sejamos como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro” (Ef 4:14)

O autor aos Hebreus também percebeu problemas com essa imaturidade ao ver que os cristãos hebreus não tinham progredido. Em de progredir estes regrediram ao estágio do leite:

“A esse respeito temos muitas coisas que dizer e difíceis de explicar, porquanto vos tendes tornado tardios em ouvir. Pois, com efeito, quando devíeis ser mestres, atendendo ao tempo decorrido, tendes, novamente, necessidade de alguém que vos ensine, de novo, quais são os princípios elementares dos oráculos de Deus; assim, vos tornastes como necessitados de leite e não de alimento sólido. Ora, todo aquele que se alimenta de leite é inexperiente na palavra da justiça, porque é criança. Mas o alimento sólido é para os adultos, para aqueles que, pela prática, têm as suas faculdades exercitadas para discernir não somente o bem, mas também o mal” (Hb 5:11-14).

Esses cristãos não conseguiam ultrapassar esse estágio do leite para o alimento sólido, patinando no que ele chamou de princípios elementares da doutrina de Cristo:

“Por isso, pondo de parte os princípios elementares da doutrina de Cristo, deixemo-nos levar para o que é perfeito, não lançando, de novo, a base do arrependimento de obras mortas e da fé em Deus, o ensino de batismos e da imposição de mãos, da ressurreição dos mortos e do juízo eterno”.

Sua irritação vai a ponto de dizer que não iria mais ficar ensinando sobre esses princípios elementares da doutrina de Cristo, e assim afirma: “Isso faremos, se Deus permitir” (Hb 6:1-3).

Que nós, pastores do rebanho de Deus, continuemos crescendo não meramente para obter títulos e diplomas, mas sim para melhor preparar o povo de Deus para servir a Deus, Sua missão e Sua igreja. Para isso, nossa (1) prática e conteúdo precisam de conteúdo sólido que nos capacite pata sermos pastores que (2) entende os tempos e épocas. Isso porque (3) a missão de Deus acontece no mundo, de forma encarnada e engajada. E justamente por isso, é fundamental (4) investir na qualidade da fé das pessoas da igreja.

 

Caro(a) colega, invista em sua formação teológica permanente.
Estou certo de que você quer ter uma igreja forte. Comece por você!

Cientes de que todo dia é dia de ser pastor, receba da Faculdade Teológica Sul Americana nossa gratidão a Deus por sua vida e ministério!

Jorge Henrique Barro