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Este artigo aborda a questão da felicidade em perspectivas filosófica e teológica. Parte do princípio de que, no mundo atual, a felicidade se configura menos como princípio e telos do ser humano, e mais como uma busca e/ou uma ambição, da qual jamais se deve

perder a esperança de um dia encontrar, mesmo que num relance momentâneo, inacabado e fugídio. Dessa forma, ao comparar essa busca e seus ideais com a perspectiva cristã, analisar-se-á o tema da felicidade a partir de sua relação com três eixos hermenêuticos: a realidade, o outro e Jesus Cristo. Uma das considerações finais do ensaio é a de que, para o cristão, felicidade não é objeto, nem fim e nem pretexto, mas fruto (não casual e não artificial) do encontro com Deus (consigo e com o outro) no caminho das desventuras bem-aventuradas da vida.

 
PALAVRAS-CHAVE
Felicidade; Miséria; Alteridade; Vida Cristã.

ABSTRACT
This article addresses the question of happiness in philosophical and theological perspectives. Assumes that in today's world, happiness is less a principle and a telos of human beings and more like a pursuit and/or an ambition, which one should never lose hope of finding, even as a momentary glimpse, evanescent and fragmentary. Thus, when comparing this pursuit and its ideals with Christian perspective, it will examine the theme of happiness from its relationship with three hermeneutical axes: the reality, the other and Jesus Christ. One of the closing considerations of the essay is that, for Christians, happiness is not an object, neither an end nor an excuse, but the result (not casual and not artificial) of the encounter with God (oneself and with each other) in the path of the misfortune but blessed life.

KEYWORDS
Happiness; Misery; Otherness; Christian Life.

Introdução
A chave para a felicidade e o antídoto da miséria é manter viva a esperança de ficar feliz.
(ZygmuntBauman)

Dentre todas as buscas e ambições humanas, a que tem como alvo a felicidade talvez seja a mais comum e recorrente; e é também um dos mais remotos anseios. Os antigos (filósofos, poetas, sofistas, etc.) se ocuparam em responder questões como “O que é a felicidade”, ou “O que é preciso para ser feliz”?

Uma diferença básica é que, nos dias atuais, o conceito ou a definição de felicidade parece menos importante que o “ser feliz” em si ou o anelo, a busca e “a esperança de ficar feliz”, como diz Bauman na epígrafe acima.

Neste ponto, aliás, parece se encontrar a tese e principal descoberta deste sociólogo em seu livro A arte da vida. Em suas palavras:
Não sendo possível atingir um estado seguro de felicidade, só abusca desse alvo teimosamente esquivo é que pode manter felizes (ainda que moderadamente) os corredores. Na pista que leva à felicidade, não existe linha de chegada (BAUMAN, 2009, p. 17).

Para Bauman, portanto, na era pós-moderna (ou, como ele prefere, líquido-moderna) o “estado” de felicidade foi substituído pela “busca” (sem fim) pela felicidade. O permanente anseio e a expectativa de vir-a-ser é que consola (ou distrai) o desespero de ainda não ter alcançado, ou quem sabe ter experimentado somente de relance, por um momento fugidio, essa tal de felicidade.

Na busca, porém, impõe-se um “ideal de felicidade” – que varia de pessoa, caso e circunstância – de onde provém parte da substância dos conceitos. E é impressionante o quanto nossos ideais humanos de felicidade são:

Efêmeros:fundam-se nas vaidades relacionadas ao gozo e ao bem-estar – saúde, bens, status, poder, fama, glória. Tem uma estrutura frágil, portanto, porque sempre de passagem.

Sensualistas: sãobaseados nas sensações, nos desejos e nas condições que nos permitem experimentar somente o prazer na vida. Felicidade, aqui, é igual a prazer e alegria sempre e dor nunca.

Individualistas: concentram-se no suprimento do “eu” e no suposto “direito” que cada indivíduo tem de ser feliz. O mundo e os outros são meios, muitas vezes, descartáveis: servem-me desde que (e enquanto) me façam feliz.

Ao me deparar com estes (intercambiáveis) ideais e tentando relacioná-los com uma ética cristã, pergunto se o cristianismo é um caminho para a felicidade ou uma antítese da felicidade nestes moldes? Com qual felicidade é possível identificá-lo (se é possível)?

Para responder a tais indagações, gostaria de propor aqui três associações (cristãs) básicas da felicidade: com a realidade, com o outro e com Cristo.

1. A felicidade no encontro com a realidade
De que maneiras a felicidade está relacionada com a realidade? O que é o real? Ele se dá a conhecer?
Para começo de conversa, não há definição (e compreensão) possível da realidade que não passe pelo jogo do espelho. Quando nos olhamos no espelho, o que vemos: a apresentação de quem realmente somos ou uma projeção distorcida? Alguns hoje dizem que a televisão mostra as pessoas de modo enganoso, assim como as revistas de moda, fitness, fofoca e pornografia – tudo por causa dos efeitos da produção e do photoshop: uma corzinha de mais, uma ruguinha e estriazinha de menos, e por aí vai.

Por sua vez, o espelho também produz algo ilusório. Basta pensar nas muitas versões que temos de nós mesmos diante do espelho, a depender do ângulo pelo qual nos fitamos. Assim também é com a realidade. Segundo Paulo, não vemos as coisas claramente, mas “como em espelho” (1Co 13.12). Então, a realidade – “esse conjunto dos acontecimentos designados para a existência” (cf. ROSSET, 2008, p. 29) – é aquilo que existe e acontece não somente como nossos olhos e mente captam, mas muito além deles. A realidade, tal como é, me escapa; ao mesmo tempo, é indelével, porque chamada a se produzir a despeito de todos os esforços feitos para impedi-la, negá-la ou evitá-la.

Ou seja, a realidade é apresentada como aquilo que “é” independente de qualquer conceito, queixa ou rejeição. Da relação que estabeleço com este real depende minha felicidade; à medida que a realidade situa o ser que a (felicidade) deseja. A vida real, portanto, me remete ao inevitável confronto entre a felicidade desejada ou prometida e a felicidade possível.

Se, porém, Bauman estiver certo em sua tese de que a felicidade nunca deixa de ser um alvo desejável aos artistas da vida enquanto perseveram na estrada que supostamente conduz até ela, então nem o real, por mais trágico que seja, seria capaz de destruir seu “sonho de felicidade”; no máximo, o que ele pode fazer é adiar o sonho. Neste caso, para os paladinos pós-modernos da felicidade, a esperança (material e individualista) é a última que morre.

Em todo caso, ainda que não se possa acabar com o sentimento trágico da existência, é possível oferecer o narcótico adequado para suportá-lo ou sublimá-lo.

Clément Rosset, em sua reflexão filosófica sobre o tema da alegria – que subjaz e pode ser associada ao tema em questão – propõe, em contrapartida, a afirmação da alegria (que ele chama de “força maior”) enquanto um abraço jubiloso na existência (no real), não importa em que qualidade. A isto ele chama de paradoxo central da alegria: “A alegria é um regozijo incondicional na existência e a propósito da existência” (ROSSET, 2000, p. 22). Para Rosset, a alegria, nesse sentido, ou é paradoxal ou não é alegria, uma vez que está em contradição com a realidade e consigo mesma, muitas vezes. É um inexplicável e misterioso regozijo que se experimenta, mesmo em meio ao sofrimento, de tal modo que se torna “impenetrável aos olhos daquele que sente seu efeito benéfico” (ROSSET, 2000, p. 27).  

Já a atitude dos corredores que estão em busca da felicidade, tal como Bauman apontou, Rosset rotula como sendo uma “negação neurótica”, pois consiste não em se acomodar, mas em negar a realidade, considerando a infelicidade não como inelutável, mas como “provisória e sujeita à eliminação progressiva” (ROSSET, 2000, p. 27).  Assim, a alegria proposta por Rosset se situa além do lugar comum da felicidade líquido-moderna, analisada por Bauman; ou poderíamos concluir que tal alegria é uma antítese (uma “força maior”) da felicidade nesses moldes.

2. A felicidade no encontro com o outro
Quem é o outro? Objeto, meio ou parte integrante de nossa busca pela felicidade?

Bem, este não é um ensaio sobre alteridade, e sim sobre felicidade. Não pretendo aqui explorar múltiplas compreensões e significados do outro – como Levinas e Buber, por exemplo, já o fizeram e muito bem – mas apenas situá-lo em relação à busca em questão. Então, no tocante a tal busca, diria, em primeiro lugar, que o outro é tanto aquele que possibilita como o que interdita o “meu” caminho rumo à felicidade. Quero dizer com isso que não há felicidade possível sem a presença (complementar) do outro, tanto no sentido egoísta e privatista – do outro como aquele que promove, aplaude ou inveja a “minha felicidade” – seja no aspecto altruísta da solidariedade e do companheirismo, do outro que compartilha da vida comigo e só assim ela tem sentido, tanto na alegria, como na dor, como se diz na poesia “Tomara”, de Vinícius de Moraes: “E pense muito que é melhor se sofrer junto que viver feliz sozinho”.

Mas o outro (que pode ser uma mesma pessoa) cumpre essa função dúbia e paradoxal da possibilidade e da interdição. Ser o outro de alguém ou ter alguém como o seu outro implica, dessa forma, em aceitar e aprender a lidar com as frustrações, decepções e infelicidades provocadas invariavelmente na relação. Nessas horas, na mesma medida em que outrora sentimos necessidade da presença do outro, também sentimos – meses, dias, horas depois (e até simultaneamente) – repulsa e desejo de que ele ou ela vá embora pelas portas do fundo para que, quem sabe, a felicidade retorne pelas portas da frente. O problema é que, seguindo esse raciocínio, ela não retorna sem o outro – provocador e interruptor da felicidade.

Nesse interregno, há uma grande chance de que desejemos pagar um preço cada vez menor nessa relação com o outro. Se ser feliz é o que há de mais importante na vida, então o outro não passaria de uma peça na engrenagem, que serve unicamente a este propósito. E se não servir, vamos atrás de outro que sirva e satisfaça, mesmo que com prazo de validade – muitos dos casamentos atuais que o digam. Como diz a canção de John Mayer (“I’m gonna find another you”): “Eu vou agora fazer algumas coisas que você não me deixaria fazer, eu vou achar um outro de você”. No mundo em que temos vivido é assim: na mesma proporção em que se descarta um amor, por exemplo, se consegue outro – só não consigo entender como ainda se pode falar em “amor” nestes termos.

Na perspectiva da fé cristã, o outro é também chamado de “próximo”. Mas o que significa ser próximo de alguém?
Lucas conta uma história emblemática a este respeito. Certa vez, um legista ou perito na lei se aproxima de Jesus e, desejando testá-lo, pergunta acerca do caminho para a vida eterna. Jesus, por sua vez (e como de costume), responde com outra pergunta: “O que diz a lei?”. Então o legista cita o mandamento do amor (cf. Lv 19.18), que termina com um “ame teu próximo como a ti mesmo”. Quando Jesus confirma ser este o caminho, dizendo “vá, faça isso e encontrarás vida”, vem a pergunta: “Quem é o meu próximo”?

Com a nova pergunta em mente, Jesus conta então a parábola do samaritano (ver Lucas 10.29-37). Todos já conhecemos o enredo da parábola; o que me interessa destacar aqui é a pergunta final de Jesus, diante da história, e a resposta do legista. Jesus pergunta qual dos três caminhantes (se o sacerdote, o escriba ou o samaritano) foi o próximo do homem quase morto à beira do caminho. A resposta do legista (embora lacônica no que diz respeito à pessoa do samaritano) vai direto ao ponto: “Foi aquele que deu prova de bondade para com ele”.

Como comenta Segundo Galilea, o samaritano foi irmão do ferido. E assim foi não por sua religião (o levita e o sacerdote eram religiosos, o samaritano era considerado herético), nem por sua raça (tida como impura e inferior por parte dos judeus), mas por sua bondade e dedicação aquele homem. Assim, nas palavras de Galilea (1979, p. 47): “O meu próximo não é aquele que compartilha minha religião, minha pátria, minha família ou minhas ideias. O meu próximo é aquele com o qual eu me comprometo”.

A felicidade, na perspectiva cristã, é incompatível com os caminhos do privatismo pós-moderno; de igual modo, não se equipara à hipocrisia e alienação de representações religiosas como as da parábola. Afirma, sem ser piegas, a necessidade do outro, assumindo e reconhecendo sua condição (demasiado humana) de provocador e interruptor da felicidade. Mas, mais do que requerer o outro para mim, sinto-me estimulado por esta perspectiva a ser o outro, o próximo, de alguém. Só que, quando isso acontece, a felicidade deixa de ser um fim, como veremos na parte final deste ensaio.

3. A felicidade no encontro com Cristo
Finalizar com a questão da felicidade de Cristo é fascinante e, ao mesmo tempo, muito difícil. Isto, porque entendo que a felicidade em perspectiva cristica é um paradoxo. Nesse sentido, é insuficiente (e até desonesto) sair por aí dizendo coisas como “só em Jesus encontramos felicidade” ou “vem ser feliz com Jesus”. Afinal, no “frigir dos ovos”, como dizem por aí, o que isto significa? Que espécie de felicidade é essa?

Bem, Jesus afirma (não como promessa, mas como um tipo de conforto realista aos discípulos) que eles seriam felizes – abençoados ou bem-aventurados – enquanto vivenciassem uma série de situações nada confortáveis e que, até por isso, estão e sempre estarão em franco contraste com o entendimento mais ou menos comum que as pessoas têm de felicidade. Vejamos alguns trechos deste discurso – conhecido como “As bem-aventuranças” – na versão

“The Message”, de Eugene Peterson.

Segundo Jesus, felizes são:
...aqueles que se encontram no fim da linha. Com menos de si mesmo, sobra lugar para mais de Deus e de sua lei.

...aqueles que sentem terem perdido o que há de mais precioso para eles. Só assim poderão ser abraçados por Aquele para o qual são o que há de mais precioso.

...aqueles que desenvolveram um bom apetite por Deus. Sua comida e bebida serão a melhor refeição que já tiveram.

...aqueles cujo comprometimento com Deus provoca perseguição. Esta os conduzirá mais profundamente ao Reino de Deus (Mt 5.3-4,6,10).

A felicidade aqui tem a ver, antes de tudo, com um modo de ser, no qual está embutida uma aceitação (jubilosa) da irremediável condição em que os discípulos se encontrariam à medida que tentassem ser fiéis aos valores e modo de vida radical que Jesus depois apresenta ao longo do Sermão do Monte. Pensando na felicidade no encontro com Cristo, gostaria de destacar algumas coisas que me chamam a atenção somente nos trechos acima elencados.
Primeiro: que ser feliz não tem (diretamente) nada a ver com satisfação (pelo menos não ao modo imediatista, que quer tudo de bom aqui e agora) ou com bem-estar, mas se parece mais com um “contentamento descontente” (lembrando aqui da poesia de Camões).

Segundo: que o que está em jogo não chega nem perto de uma busca pela felicidade, uma vez que não são a pretensão ou a ambição que dão o tom da vida cristã, mas o abandono, esvaziamento e a despretensiosidade dos despossuídos.

Terceiro: que, entre perdedores e ganhadores, aqueles que perdem serão consolados com a esperança de encontrar alguma vantagem na desvantagem.
Quarto: que a realização dos felizes não se encontra tanto na conquista da autonomia quanto na graça da dependência. Como disse C. S. Lewis, “o próprio Deus é o combustível que nosso espírito deve queimar, ou o alimento do qual deve se alimentar”, e ainda que “Deus não pode dar uma paz e uma felicidade distintas dele mesmo, porque fora dele elas não se encontram” (LEWIS, 2005, p. 66).

Finalmente, o centro da existência dos felizes ou bem-aventurados não está neles, ou em qualquer “vitória” que possam conseguir aqui e agora, mas em
Deus e na construção de seu reino, não somente nesta história, mas também dentro dela. Se a felicidade pousa em seus ombros não é pela e nem na busca, mas em meio ao gradativo desprendimento da vida simples e a liberdade interior de quem se deixa ser guiado mais pelo sopro do Espírito da vida que pelos ecos e ventanias do espírito do tempo.

Considerações finais
Na vida cristã, felicidade não é objeto, nem fim e nem pretexto, mas fruto (não casual e não artificial) do encontro com Deus (consigo e com o outro) no caminho das desventuras bem-aventuradas da vida. Dessa forma, hoje posso dizer que não sou e nem me sinto tentado a ser discípulo do Cristo pela proposta fisiologista – e propagandística (desculpem o pleonasmo) – para “ser feliz com Jesus”. Primeiro, porque esta “promessa” inexiste no Evangelho.

Segundo, porque nem sempre sou, estou ou me sinto alegre ou feliz, e isto não é (nem de perto) sinal de que deixei de estar com Cristo – está na hora de parar com essa balela doentia! Terceiro, porque você não encontra uma palavra sequer nos discursos de Jesus, ou dos apóstolos, mesmo os de ânimo, que tente mostrar uma realidade diferente do que ela é. O que vejo é um realismo esperançoso e uma esperança realista. Por fim, ainda tem o nó, que prefiro não desatar, de pessoas que conheço que garantem ter uma vida saudável e feliz sem nunca ter passado pelo apelo ou dito “eu aceito”. Há mistérios que nem a mais pretensiosa ou competente das teologias pode desvendar. E é muito bom que assim seja, do contrário não seria mais teo-logia e sim diabo-logia.

Tornei-me seguidor de Cristo pela misteriosa e graciosa atração por seu amor, demonstrado na cruz do calvário, e pela consciência que passei a ter, pelo Espírito, do consequente compromisso com o caminho da cruz. Se encontrei a felicidade nesse caminho é pela simples alegria de a ele pertencer, de poder ser chamado de e amado como filho, e pela imensa gratidão e contentamento que de mim brotam – não sem lutas, revoltas ou sofrimentos, afinal sou humano – em meio às mais variadas circunstâncias. 

Para Paul Tillich (1972, p. 11), o que cria a alegria em alguém é a afirmação do “ser essencial” desse alguém a despeito de desejos e ansiedades. Não estou seguro se concordo que a alegria é “criada”, pois isto pode dar certo tom de artificialidade ao processo; prefiro uma palavra que Tillich mesmo usa depois: aprendizado. Lembrando do que disse Paulo aos Filipenses: “Aprendi o segredo de viver contente em toda e qualquer situação, seja bem alimentado, seja com fome, tendo muito, ou passando necessidade” (Fp 4.12b – NVI). Isso mesmo, alegria é aprendizado. Dito isto, podemos retornar a Tillich:

Lucílio é exortado por Sêneca a fazer sua ocupação, o “aprender como sentir alegria”. Não é à alegria de desejos satisfeitos que ele se refere, porque a alegria real é “assunto sério”: é a felicidade de uma alma que é “elevada acima de todas as circunstâncias”. A alegria acompanha a autoafirmação de nosso ser essencial, a despeito das inibições provocadas em nós pelos elementos acidentais. Alegria é a expressão emocional do corajoso Sim ao verdadeiro ser próprio de uma pessoa (TILLICH, 1972, p. 11).

Esta alegria se expressa no pranto tanto quanto no riso; e nos mais recônditos de nossa alma, ainda que muitas vezes ferida, triste, sem horizontes, existe uma alegria escondida, a alegria de que ser é o suficiente, pois felizes podem ser aqueles que aprendem que na vida não precisamos ter ou fazer tantas coisas. O mais importante é caminhar, e de modo mais despretensioso possível, para que os sonhos e as pretensões de Deus encharquem nossos corações, mobilizando-nos para uma jornada mais compassiva, sensível e agradecida.

A alegria de simplesmente ser-em-Deus nos ajuda a experimentar do gozo do trabalho e da vida material com mais naturalidade e menos apego, ilusão e dependência. Vale recordar aqui algumas das constatações do autor de Eclesiastes, de que “não há nada melhor para o homem do que desfrutar do seu trabalho, porque esta é a sua recompensa (Ec 3.22), e que “poder comer, beber e ser recompensado pelo seu trabalho é um presente de Deus” (Ec 3.13).

Auxilia-nos, ainda, a aprender a como lidar melhor (e até debochar, sem grandes culpas ou neuroses) das eventuais convulsões do ego, vaidades e mesquinharias como sendo parte indissociável dessa arte (torta) de ser humano – levar a sério o pecado não implica em se levar a sério demais o tempo todo, o que pode ser tão doentio quanto o descaso para consigo e suas responsabilidades. Descobrir esta alegria é aprender a viver sabendo que basta a cada dia o seu próprio mal, e também o seu próprio bem, e a desfrutar dos pequenos, simples e belos momentos do cotidiano como sendo especiais e repletos de singularidade.

A esperança cristã, contudo, também é paradoxal; nela não se separam o gosto de viver a vida que se tem (aceitação) do anseio pela ressurreição e a vida eterna (inquietude). A ética da aceitação jubilosa, presente na visão trágica de Rosset, por exemplo, se dissocia da visão cristã quando se resigna ao provisório, quase como que dizendo que essa vida aí, da forma como é, está boa, e não se deve querer nada diferente disso. Segundo Rosset (2000, p. 28, 29), a alegria é a “força maior” precisamente porque dispensa a esperança – entendida por ele apenas como atração pelo gozo de uma “outra vida” e, por isso, “força mais do que duvidosa”. Entretanto, perguntaria a Rosset como a aceitação jubilosa pode resistir sem a esperança? É ela quem a alimenta; a aceitação só pode ser, por assim dizer, “jubilosa”, contente, porque não apenas aceita a provisoriedade em si, mas a provisoriedade do que é provisório. Em outras palavras, quero dizer que a esperança cristã aceita e convive com o provisório, mas não relega a ele a última palavra. Duvido que Rosset fique jubiloso com minha apropriação de sua aceitação jubilosa.

Por outro lado, a felicidade no encontro com Cristo, como temos visto, também incorpora a dimensão trágica na medida em que não a nega, mas propõe o enfrentamento e a convivência. É parceira das tristezas, injúrias e dores e, às vezes no “olho do furacão”, de modo incompreensível, ressurge como fênix, como “socorro bem presente”. Aqui talvez seja válida a recorrência (ainda que deliberada) a Rosset (2000, p. 27), quando ele afirma que esse “socorro da alegria” permanece, para nosso bem, misterioso, “impenetrável aos próprios olhos daquele que sente seu efeito benéfico”. Segundo ele:

O homem verdadeiramente alegre pode ser reconhecido, paradoxalmente, por sua incapacidade de precisar com o que fica alegre e de fornecer o motivo próprio de sua satisfação (ROSSET, 2000, p. 08).

A felicidade, nesse sentido, se faz (e se desfaz) em um misto de satisfação e alegria com e, aparentemente, sem motivo. Podemos estar obviamente alegres por uma linda razão, mas também “rindo à toa”.

Referências Bibliográficas
BAUMAN, Zygmunt. A arte da vida. Rio de Janeiro: Zahar, 2009.
GALILEA, Segundo. Seguir a Cristo. 2ª ed.São Paulo: Paulinas, 1979.
LEWIS, C. S. Cristianismo puro e simples. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
PETERSON, Eugene. The Message: The Bible in contemporary language. Colorado: NavPress, 2005.
ROSSET, Clément. O real e seu duplo. Ensaios sobre a ilusão.2ª ed. revista.  Rio de Janeiro: José Olympio, 2008.
_______. Alegria: a força maior. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2000.
TILLICH, Paul. A coragem de ser. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1972.


Jonathan Menezes
Doutorando em História pela UNESP.
Mestre em História Social pela UEL.
Professor da Faculdade Teológica Sul Americana.