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Graça na Comunidade Eclesial (’ekklesia)

Este é o segundo post de uma série teológica sobre a graça de Deus a partir da Escritura e sua presença nas teologias cristãs. A pergunta que me motiva a escrever esta série é prática: como pensar e viver a graça de Deus no século XXI (estando no Brasil)?

Semana passada o foco recaiu sobre o que poderíamos chamar de a essência da graça: a gratuidade e fortuitidade da vida no mundo criado por Deus. Graça é ausência de cálculo, o posto da regra do mundo capitalista em que tudo deve ser calculado, ponderado, pesado, mensurado. Ausência de cálculo, graça é excedente de valor: a pessoa vale por simplesmente existir; o mundo vale simplesmente por existir – criação de Deus.

E quanto à ’ekklesia? Há muito tempo se debate nas Igrejas a relação entre carisma (efeito da graça) e instituição (efeito do cálculo). Costumeiramente se defende a prioridade do carisma sobre a instituição, mas, em termos práticos, nenhuma denominação cristã tem feito qualquer coisa para colocar em prática a supremacia da graça.

Precisamos começar a pensar e viver a comunidade eclesial como um espaço-tempo de equidade: mesmo valor, mesma responsabilidade. Equidade é uma das traduções da graça na vida eclesial. Todas as pessoas que participam da igreja possuem o mesmo valor – não vale qualquer outro tipo de cálculo. As lideranças, portanto, precisam pensar de si mesmas apenas como servas de Deus e servas da comunidade.

Mesmo valor, mesma responsabilidade: um novo estilo de liderança carismática. Liderar em graça é liderar sem hierarquia, sem ‘autoridade’, sem dominação. Liderar em graça é dar exemplo: simplesmente viver e praticar o dom ou dons que Deus nos deu. O ‘exemplo’ a ser dado pelas lideranças não é diferente do exemplo a ser dado pelos liderados – ou então a equidade se extingue e, com ela, a graça.

Graça, enquanto ausência de cálculo, na comunidade eclesial, também implica em valorizar diferentemente. O que ‘conta’ na igreja não é o número de membros, de cultos, de prédios, de reais arrecadados. O que ‘conta’ na igreja é simplesmente a relação entre os seus membros. A comunidade eclesial tem valor apenas por existir. Cada membro da comunidade é valioso apenas por ser membro da comunidade: ser um com o Messias.

O que conta na comunidade eclesial na graça é que todos e todas são um no Messias: “não há homem, mulher; grego ou judeu; rico ou pobre; diplomado ou não-diplomado...” Uma igreja cheia de graça é uma igreja vazia de discriminações de todo e qualquer tipo: econômica, política, religiosa, sexual, etc. Em uma linguagem mais tipicamente bíblica: uma comunidade sem julgamentos, ninguém julga ninguém!

Equidade, ausência de cálculo. Graça enquanto fidelidade mútua. O que caracteriza a comunidade carismática (gerida e gerada pela graça) é a fidelidade mútua. Nem mesmo os dons devem ser usados para calcular e valorizar as pessoas. Nem mesmo a missão (enquanto esta é pensada como atividade obrigatória da igreja). Apenas a fidelidade mútua. Se somos fiéis uns aos outros, seremos também fiéis a Deus. Fiéis a Deus, seremos também fiéis à sua criação inteira. A partir da fidelidade, a missão acontece e acontece na equidade do não-cálculo.

Missão se torna leveza. Dons espirituais se tornam prazer de servir. Ninguém tem ‘mais poder’ do que outrem. Ninguém tem ‘mais graça’. Igreja é corpo=comunidade. Com-unidade. Com-equidade. Com-diversidade. Missão, ministério, dom: efeitos da graça: manifestações da fidelidade.

Fidelidade = amor mútuo. Amor sem cobranças, sem estruturações, sem organizações. O culto pode ser ‘assim ou assado’; o sermão pode existir ou não; o louvor pode ser musical ou não; a doxologia pode ser usada ou não ... Graça: plena liberdade em relação a formas e estruturas, quer litúrgicas, quer políticas, quer ministeriais ...

Comunidade eclesial carismática: vida aberta a múltiplas possibilidades, múltiplas formas, múltiplos modos de ser e de agir. Apenas graça, apenas carismaticidade. Tudo o mais fluirá naturalmente. Apenas graça, apenas carismaticidade = ausência de hierarquias, cálculos, organizações. Anarquia da graça?

Graçanarquia!

Julio Paulo Tavares Zabatiero - Doutor em Teologia, Professor nas áreas de Bíblia e Teologia Pública e Pastor da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil

Quarta Teológica da FTSA 11/11/2015 - série de reflexões publicadas na página oficial da Faculdade Teológica Sul Americana no Facebook

foto:pixabay