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O cuidado de Deus por sua criação não deixa de fora nenhum detalhe. No Sermão do Monte Jesus nos ensina a olhar as flores e os pássaros como mensageiros da revelação da graça divina, mensageiros que em sua beleza e simplicidade nos fazem enxergar o Reino de Deus, um reino amoroso, benéfico, transformador, justo e santo.

“Buscai primeiro o Reino de Deus e sua justiça ...” Em nosso tempo, ao invés de buscarmos o Reino de Deus, a maioria de nós, seres humanos, busca “as outras coisas” – que já não podem mais “ser acrescentadas”. As coisas se tornaram o alvo de nossa busca cotidiana. Comer, beber, vestir, ter prazer, vencer, lutar, fazer política ... Todas essas outras coisas da vida se tornaram a própria vida e, por isso, não passam de ídolos.

Enquanto ídolos, continuamente nos atraem e seduzem por sua beleza, por sua leveza, ou mesmo pelo seu caráter grotesco e mórbido – ou será que você nunca, nunquinha mesmo, teve a curiosidade de dar uma olhadinha naquele acidente que faz todos os carros diminuírem a marcha? Ou, jamais viu uma cena de terror, ou um filme de ação com centenas de mortes e um herói estropiado que sai cambaleante, mas vivo ao final? Ou, então, será que você jamais se ocupou de conversas sobre a desgraça do Brasil, ou sobre a corrupção, ou como o Cunha é uma vergonha para os evangélicos, ou como a presidenta não consegue acabar coma corrupção?

O papel dos ídolos é desviar o nosso olhar. Ao olhar para eles, deixamos de contemplar a Deus. Por isso, no mesmo Sermão, Jesus diz que os “olhos são a lâmpada do corpo”. Se vivemos sob a graça de Deus, aprendemos a dirigir nosso olhar para as coisas simples e belas que Deus criou e nos capacitou a criar. Por que Deus é graça, e graça em nós e conosco, somos capazes de transcender, de ir além.

Transcender, na graça divina, porém, não é ir “além-mundo”, não é ir para “outro mundo”, mas, ao contrário, ficar neste mundinho aqui mesmo. Pois é aqui, neste mundinho estranho e injusto, que Deus está presente, é esse mundinho aqui que Deus criou e ama, e deseja salvar juntamente conosco – ou não foi na simplicidade que Jesus viveu, e na feiura que ele morreu na cruz para salvar toda a criação? E não foi na beleza da ressurreição que Jesus transcendeu e mostrou aos discípulos que, embora não mais presente aqui em carne e osso, continua sendo o Filho de Deus com um corpo ressurreto?

Se você procura a graça em momentos ou situações “maravilhosas”, “grandiosas” ou “transcendentais”, está perdendo seu tempo. Olhe para os lírios, olhe para os pardais, olhe para as crianças. Não olhe para os ídolos. A graça está presente nas coisas e situações mais simples, porque é a graça do Deus que esvaziou a si mesmo e assumiu a condição humana e a forma de escravo. Aprenda a ver!

Estranha exortação. Não sabemos, todos nós, ver (com exceção dos ‘cegos’)? Não! Sabemos olhar, mas não sabemos ver. Vemos e não enxergamos o que deveria ser visto e enxergado. Deixe a graça divina fazer de seus olhos uma verdadeira lâmpada que ilumina os caminhos da vida com a sabedoria do Criador.

Julio Paulo Tavares Zabatiero - Doutor em Teologia, Professor nas áreas de Bíblia e Teologia Pública e Pastor da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil

*Quarta Teológica da FTSA 17/12/2015 - série de reflexões publicadas na página oficial da Faculdade Teológica Sul Americana