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publicado em 21/05/2021

No Pentecostes celebramos o derramamento do Espírito Santo sobre a comunidade de discípulos e discípulas de Jesus. A celebração leva este nome pelo fato da promessa de Jesus ter sido cumprida cinquenta dias após a Páscoa, momento em que os judeus celebravam o Pentecostes, a festa da oferta das primeiras espigas (Ex 34:22) e da recordação da aliança no Sinai (lembrança unida posteriormente).

Neste dia, após um período de expectativa, os discípulos foram surpreendidos pelo cumprimento da promessa do Pai. Mas, qual o significado deste derramar do Espírito?

Após a sua ressurreição, Jesus apareceu aos discípulos durante quarenta dias, “falando das coisas concernentes ao reino de Deus” (At 1:3). Dentre as instruções repassadas, Jesus solicitou que seus discípulos não se ausentassem de Jerusalém, pois, não muito depois daqueles dias, eles seriam batizados com o Espírito Santo (v. 5). O propósito deste batismo era claro: “mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas” (v. 8). Ou seja, o objetivo era capacitar a igreja para o exercício de sua missão de testemunhas. E assim, nesta expectativa aquela comunidade vivenciou os dias entre a ascensão de Jesus e o Pentecostes.

Ter em mente o propósito da descida do Espírito é de fundamental importância para que a dimensão experiencial não apague o propósito missional do acontecimento. Atos 2 nos fornece muitas imagens. Por um lado, sinais da manifestação do Divino: um som como de um vento impetuoso e o aparecimento das línguas de fogo sobre os presentes. Por outro, a experiência individual do falar em outras línguas. Roger Stronstad, um biblista pentecostal, alerta para o fato de que “a vindoura função dos discípulos como testemunhas, e não a experiência profunda e emocionante de falar em línguas, é a chave para entender o significado do dom do Espírito no dia de Pentecostes” (2018, p. 98).

A estrutura narrativa de Lucas-Atos fornece uma ferramenta útil para melhor delinearmos o significado dessa capacitação. Ambas as partes da narrativa iniciam com um relato de capacitação do Espírito, e apontam o significado dessa experiência para a missão. Dentre as imagens a partir das quais Lucas apresenta a figura de Jesus, destaca-se a imagem do profeta carismático. O significado da descida do Espírito sobre Jesus em seu batismo no Jordão é explicitado na sinagoga de Nazaré, quando Jesus lê o texto de Isaías 61:1-2, e aplica a si aquelas palavras, dizendo aos presentes: “Hoje, se cumpriu a Escritura que acabais de ouvir” (Lucas 4:21). Jesus se apresenta como um profeta capacitado pelo Espírito. Com esta apropriação Jesus tanto explica o significado do seu recebimento do Espírito quanto aponta para o seu “programa de ação”.

Ele foi comissionado para ministrar aos pobres, quebrantados do coração, cativos e cegos. Como o seu ministério subsequente demonstrará, será um ministério do favor gracioso do Senhor para o povo de Deus, quer sejam econômica ou espiritualmente empobrecidos, quer sejam social ou espiritualmente privados de direitos, quer estejam em escravidão física ou espiritual, quer sejam física ou espiritualmente cegos. Esse programa de ação ungido pelo Espírito reúne elementos da justiça social ou do monoteísmo ético dos antigos profetas (escritos) de Israel e aspectos da atividade carismática dos antigos profetas carismáticos de Israel, como Elias e Eliseu (STRONSTAD, 2018, p. 68)

À luz da caracterização do ministério carismático de Jesus e de seu programa de ação, agora podemos nos voltar para o relato de Pentecostes. Segundo Menzies (2020, p. 47), “Lucas elabora a narrativa de forma que não podemos deixar de notar os paralelos entre a experiência de Jesus no Espírito (Lc 3–4) e a dos discípulos no dia de Pentecostes (At 1–2)”. Desta forma, a narrativa de Jesus nos convida tanto a olhar para trás, a fim de compreendermos o significado da experiência de Jesus, quanto a olhar para frente, de forma a explicar a experiência da comunidade no dia de Pentecostes. Sobre essa relação, Menzies pontua que ambas foram colocadas no início de cada parte da narrativa (Lucas-Atos), ambas associam o recebimento do Espírito com a oração, ambas registram manifestações visíveis e audíveis e ambas oferecem explicações do evento a partir de profecias do Antigo Testamento.

A afinidade estrutural narrativa entre esses dois eventos aponta para a natureza do Pentecostes: a descida do Espírito Santo no Pentecostes é de natureza missiológica. Assim como o Espírito capacitou Jesus para o cumprimento de seu ministério, também capacita a igreja para o cumprimento de sua missão. Neste sentido, podemos dizer que também para a igreja vale o mesmo programa de ação esboçado na sinagoga de Nazaré. Aqui também podemos olhar para frente, do passado do texto em direção ao nosso futuro, e afirmar que o programa esboçado e encarnado por Cristo a partir de Isaías 61 ainda é atual e válido para a igreja do século XXI.

Para concluirmos. O que é celebrar o Pentecostes? A partir do percurso percorrido nesta pequena reflexão podemos afirmar que celebrar o Pentecostes é recordar que a comunidade de discípulos e discípulas de Jesus no século XXI é capacitada pelo Espírito a fim de cumprir a missão delegada a ela pelo próprio Cristo. Muito mais que uma simples experiência mística – e aqui não negamos que possa haver essa dimensão experiencial – o Pentecostes é de natureza missional, e sua celebração deve reavivar a igreja para o cumprimento de sua missão no poder do Espírito.

BIBLIOGRAFIA
MENZIES, Robert. Pentecostes: essa é a nossa história. Rio de Janeiro: CPAD, 2020
STRONSTAD, Roger. A teologia carismática de Lucas: trajetórias do Antigo Testamento a Lucas-Atos. Rio de Janeiro: CPAD, 2018

por Cezar Flora, professor na FTSA e auxiliar de coordenação na graduação e pós-graduação presenciais