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Nossa espiritualidade se baseia na convicção de que nosso Deus se revelou. Nosso acesso a essa revelação são as Escrituras Sagradas, pelo menos no âmbito protestante onde a tradição eclesial e revelações extrabi?blicas devem ser julgadas em relação à Bíblia.

Geralmente usamos a expressão “autoridade da Bíblia” para mostrar nossa dependência das Escrituras.

Por muito tempo afirmei a verdade da frase “autoridade da Bíblia“ de todo coração, mas ao mesmo tempo considerei que essa fala não estava livre de problemas. Como um texto pode exercer autoridade? A autoridade e? sempre conferida a partir do exterior, quer porque ha? confiança na figura de autoridade, ou porque essa pessoa tem certa assertividade referente a seus objetivos. Nem um nem o outro pode ser aplicado a um texto. Então, o que queremos dizer quando falamos de “autoridade das Escrituras”?

Felizmente descobri que esse pensamento um pouco mais profundo não me levou a me tornar um teólogo liberal. Bem ao contrário. Descobri o livro de um bispo inglês que esclarece o conceito de forma intelectualmente rigorosa e ao mesmo tempo de forma bem prática e espiritual. Meu coração bateu um pouco mais forte quando devorei o livro; encheu-me de alegria ao repensar um monte de assuntos a partir dessa perspectiva.

Quero oferecer um resumo desse livro de Nicholas Tom Wright, As Escrituras e a Autoridade de Deus. Segundo Wright (2013, p. 21) a frase “autoridade das Escrituras” e? um resumo abreviado de “autoridade de Deus realizada pela Bíblia”. O ponto de partida e?, por conseguinte, a autoridade divina por trás da Bíblia. O que queremos dizer quando definimos Deus como autoridade? A linguagem bíblica utiliza o discurso do “reino de Deus”.

Autoridade tem a ver com “reinar”. Toda autoridade vem de Deus (Rm 13:1; Jo 19:11; Mt 28:18; Isa 40-55; Ap 4-5). Então, o texto autoritativo refere-se a Deus e Jesus quando se trata de autoridade. A autoridade das Escrituras, por isso, so? pode ser uma autoridade delegada. Para Wright, o caminho para uma restauração significativa da autoridade das escrituras pode ser construído apenas de suas partes: “O que queremos dizer quando falamos que Deus ou Jesus tem autoridade? ”. “Qual o papel da Bíblia neste contexto? ”.

A própria Bíblia liga autoridade divina com a linguagem de reinado e de reino. Os Evangelhos sugerem que, olhando para Jesus, podemos perceber como Deus exerce sua autoridade. E? a velha ideia israelita de que Deus e? o soberano do mundo inteiro, mas que e? preciso uma nova, fresca intervenção divina em nosso mundo, que e? caracterizado pelo pecado, pela decadência, corrupção, morte, idolatria e a rebelião. A restauração desta criação e? o eixo no qual gira toda escatologia bíblica: Deus, em Jesus, sua morte e ressurreição inauguraram a renovação da criação. Ela e? o objetivo do exercício soberano do poder de Deus. Neste contexto, temos que entender quaisquer outras autoridades especificas (na Igreja e na sociedade).

O objetivo da autoridade de Deus não e? um reinado opressivo, como e? conhecido pelos governantes humanos. No reinado de Deus, o foco está? na realização do grande plano de Deus de curar o cosmos em sua totalidade. Isto está? muito longe de escatologias triunfalistas. Assim, Wright determina a autoridade das Escrituras como uma autoridade indireta que age através da leitura e, em seguida, da ação resultante da igreja: “leiam e interpretem as Escrituras como vocês sabem, e assim a deixem fazer através de vocês o seu trabalho no mundo” (p. 77).

No final das contas, foi exatamente isso que Jesus fez quando viveu em obediência a tudo o que Deus realmente esperava de Israel e de toda a humanidade (p. 41-43). Esse e? o significado da “locução de cumprimento”: Jesus sempre liga as suas ações com a Escritura e assim mostra a antiga intenção divina: este e? o ser humano que Deus imaginava no início, o verdadeiro ser humano. Em Jesus a autoridade das Escrituras se tornou realidade, ai? percebemos como e? o reino de Deus.

A Bíblia e? o “sopro fresco de Deus”, que motiva a igreja e a dirige em sua intenção. Isso e? algo muito diferente de uma autoridade estática, tal como um conjunto de regras comportamentais ou dogmas. Wright afirma que e? a metanarrativa bíblica, em cujo poder e? de mover as pessoas para um novo pensamento e nova ação (Rm 12:1!) – e isso não e? nada mais do que um exercício de autoridade (p. 24).

Assim, a Bíblia e? mais do que um livro cheio de máximas sabias, mais do que o comentário oficial sobre a história da salvação, mais do que um depósito de ideias para abastecer uma espiritualidade cansada. A Bíblia e? um dos meios, pelo qual Deus prossegue o seu grande projeto de salvação e de criação (p. 28). Um cristão ou uma igreja que segue e se orienta pela Bíblia, também se torna uma maneira de expressar a autoridade divina nesse mundo.

Quando aceitamos essa autoridade divina nas nossas vidas, quando deixamos Deus definir o nosso lugar na grande narrativa bíblica e a partir disso formar nossa identidade. E além da nossa identidade, Deus muda a nossa visão de Deus e do mundo (espiritualidade). Ele muda nossas prioridades e, assim, nosso comportamento (ética). Tudo isso Deus faz através da leitura da Bíblia, em solidão e em comunidade. Desse modo antecipamos a nova criação de Deus que e? caracterizada por justiça, alegria e paz. Quem precisa de mais incentivo para ler e estudar a Bíblia?

Dr. Stefan Kürle
Doutor em Antigo Testamento pela University of Gloucestershire, Cheltenham no Reino Unido. Missionário da Missão Cristianismo Decidido e do CERVIM em Rolândia - Paraná.
Leciona na área de Bíblia. Professor voluntário na FTSA.