O espectro do adolescer

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O espectro do adolescer

Recentemente tivemos o privilégio de receber o professor Sergio Rocca para tratar de um tema relevante às famílias contemporâneas e claro, aos profissionais de ajuda às famílias: a Adolescência. O objetivo do curso foi levar os alunos a perceberem suas próprias crenças sobre os jovens, ampliar o contexto em que se encontram pais e adolescentes em suas narrativas problemáticas e aprender a ensinar o exercício de negociar entre pais e adolescentes.

Durante o Módulo Temático: Família com Adolescentes – “O espectro do adolescer”, o médico psiquiatra abordou aspectos culturais, comportamentais e psicológicos que devem ser considerados na hora de tratar os conflitos de jovens e adolescentes. Explicou também que na adolescência a questão principal não é “hormônio”, como muitos dizem, mas “neurônios”. “Há uma atividade intensa acontecendo no cérebro, na mente, nas emoções. Os adolescentes vivem tudo de forma intensa e, na maioria das vezes não tem nenhuma noção de perigo; eles querem apenas viver a experiência”, disse o professor, mostrando que os pais por não compreenderem essa particularidade, acabam sofrendo por não reconhecerem no adolescente a criança meiga que o filho ou a filha era na infância.

Para exemplificar um pouco mais essa questão, Rocca redigiu um belo texto onde aborda o distanciamento entre pais e adolescentes e onde propõe a construção de uma ponte que ligue de volta os caminhos entre eles, afinal “o amor ainda liga, e as atitudes ainda fazem a diferença. A perseverança em negociar o possível no presente  faz um futuro para todos”, escreveu.

 

Além da fase…

O jovem de 14 para 15 anos deitado na cama do seu quarto teclava, com incrível rapidez, no WhatsApp…

Meus pais
Faz tempo que não falo ou demonstro: – eu os amo.
Também sei que me amam.
Mas olhem bem e vejam quem estão olhando…eu ainda não sou adulto(a) e também não sou mais a criança que conheceram.
(Aliás sinto falta dela…)
Eu quero ser feliz. É só isso!
E vcs não me entendem.
Dá muita raiva, sabe. Que faço com minha vontade de viver?
Faz tempo que vejo que muitas das minhas alegrias são suas tristezas.
Suas alegrias são muito chatas. Suas festas… são de doer.
Já foi o tempo de acompanhar vcs e achar ótimo.
Por que não posso viver minha vida? Por que não posso sair com meus amigos? Por que não posso jogar com eles? Por que me controlam tanto? Hora, roupa, música, arrumação, nota, computador, namoro… Não confiam em mim?
Acreditem… sei me cuidar!
Dá muita tristeza. Muita. Tenho que me ligar em outras coisas, senão vou ficar louco.
Não adianta.
Tô perdendo tempo.
Nem sei por que tô escrevendo.
Esquece…

E deletou.

Num outro cômodo da casa, quase ao mesmo momento, um pai, depois da costumeira briga por saídas no de fim de semana e longa conversa com a mãe, também escrevia…

Filho, nós te amamos.
Sempre demonstramos, mas você ultimamente não parece acreditar. Aonde foi parar aquela pessoa querida? Meiga.
Nós queremos seu melhor. Estamos cuidando do seu futuro.
Temos medos sim! Vários: bebidas, drogas, desinteresse pela vida, sexo…
Você não vê risco em nada! Não foi isso que te ensinamos.
Você quer viver tudo de uma vez ou nada te interessa.
Você não quer que sejamos seus pais? Para tudo você tem uma resposta.
Você ainda é nossa responsabilidade!
Estamos tristes sim. Sempre te demos tudo que foi possível.
Agora você, quando está em casa, vive enfiado no quarto.
Estamos cada vez mais distantes… está muito difícil.
Muito. Nem sei por que estou escrevendo. Você já ouviu essas frases tantas vezes…

Essas mensagens não foram enviadas. Quando o pai clicou enviar, não foi. Sinal fraco. Muito conteúdo. Mensagem longa…

Eles se amam, mas, hoje, há um muro entre eles. Invisível. Em muitos lares, feito de diferentes “materiais”, existe esse muro. Como uma epidemia esse muro vai se espalhando e na soma cria uma grande muralha entre as gerações. Pais solitários de um lado e filhos adolescentes, unidos, do outro.

Já foi a época que a Adolescência era uma fase da vida dos jovens. Hoje ela é um momento novo na vida da Família. Novo para todos. Novo toda semana! E não existe manual.

Os jovens precisam de experiências e os pais perdem proximidade, não a responsabilidade. A equação muda para todos. Mas, o amor ainda liga, e as atitudes ainda fazem a diferença. A perseverança em negociar o possível no presente, faz um futuro para todos.

Quando na rede o sinal é fraco, as mensagens devem ser divididas, indo aos poucos, para aproveitar melhor a conexão. Negociações e acordos com os adolescentes também devem ir aos poucos. Pequenas partes por vez. Afinal, todo muito é somatória de pequenos.

Nessa rede (do amor) oposto à virtual, quantos mais estiverem conectados, melhor fica o sinal.

Prof. Sergio Rocca – Especialista em Terapia Psicodramática. Especialista em Dependência Química. Formação em Supervisão Clínica em Terapia de Casal e Família no Chicago Center for Family Health. Atualização em Terapia de Casal e Família no CCFH. Terapeuta de Casal e Família. Médico. Psiquiatra. CRM 7533. Curitiba, PR.

 

 

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