O Cristão não lê mais a Bíblia? De quem é a culpa?

Eu tenho ouvido a queixa de muitas pessoas de que os cristãos não lêem mais a Bíblia. Cada vez mais se tornam analfabetos em relação às Escrituras. Outro dia estarreci ante uma observação que me pareceu ousada. A pessoa sugeriu que nós, os pastores, é que somos os culpados! Minha primeira reação foi simplesmente dizer: “não pode ser!”

Como isso é possível? Não somos nós os bons protestantes que colocamos uma grande ênfase na leitura da Palavra de Deus? Não existe o chamado regular para nossas congregações passar um bom tempo, todos os dias, lendo a Bíblia e orando?

Pensando um pouco mais, entendi o comentário e me senti profundamente convicto de como o processo funciona. Qual é a impressão geral que o Ricardo ou a Maria têm quando eles se sentam no banco para ouvir a nossa pregação a cada domingo? “Poxa vida”, eles pensam, “é uma maravilha como ele explica este texto do Antigo Testamento. Ele se torna tão relevante! Eu nunca teria pensado que o texto significava isso…” Quando Maria, após o culto, aperta a mão do pastor e sussurra-lhe: “Tão maravilhoso este sermão. Uma benção! Muito obrigado!”, o pastor sorri benevolente e humildemente, mas, no coração goza um sentimento de orgulho.

O que temos como resultado disso após alguns anos? Uma grande dependência do Ricardo e da Maria na figura do pastor. Eles acham que sem o pastor não são capazes de entender a Bíblia. Esse preconceito, formado domingo após domingo, tira toda vontade de abrir a Bíblia em casa. Resultado: analfabetismo bíblico. Outro resultado disso é o pastor se achando um bom pastor, quando no final fracassa em ensinar o povo da igreja a pensar sozinho, a se desenvolver independentemente e assim crescer espiritualmente.

Somos nós, os pastores, com o nosso jeito de pregar que damos o tom da pregação. Já ouvi pregações que realmente precisavam do Espírito Santo para fazer sentido, porque o texto bíblico em si não falou nada sobre o que o pastor quis dizer. Isto acontece muito quando o pastor usa o texto de forma alegórica (e não há fim na criatividade com alegoria). Alguns de nós tem o hábito de fazer referências às línguas originais (grego e hebraico) para impressionar o povo. Tudo isso só faz aumentar a distância entre o ouvinte e a Bíblia em suas mãos, e aumentar a posição elevada do pastor. Se o pastor têm condições de usar as línguas originais, use na preparação de um sermão, mas, na pregação fique quieto sobre isso!

O que precisamos são pastores transparentes nas suas pregações, pastores que explicam como eles chegaram ao seu entendimento do texto bíblico. Observe um exemplo: “Gente, vamos abrir as nossas bíblias em Salmo 15. Enquanto lemos o Salmo, observe quantas coisas se destacam para uma pessoa que deseja ficar perto de Deus!“ Dessa forma, os ouvintes aprendem um jeito simples de se aproximar de um texto complicado e poético. Outro exemplo: Filipenses 2:6-11. “Irmãos, observem esta escada para baixo e a escada para cima. Jesus fez ativamente? E o que Deus fez com Jesus?“ (Claro, no grego você tem a óbvia separação de verbos em voz ativa e verbos em voz passiva nesse texto, mas, você vai evitar dizer isso para sua congregação).

Sejamos transparentes como pregadores. Se a nossa pregação é conforme o Espírito Santo, perceberemos o resultado, os frutos na vida dos nossos ouvintes. Afastá-los da Bíblia certamente não é um fruto do Espírito!

Dr. Stefan Kürle – Doutor em Antigo Testamento pela University of Gloucestershire, Cheltenham no Reino Unido, Missionário da Missão Cristianismo Decidido e do CERVIM em Rolândia – Paraná, Leciona na área de Bíblia. Professor voluntário na FTSA.