O mandato cultural e o ministério da reconciliação

mão segurando planeta natureza

No mês em que se celebra o Dia da Terra, vale uma reflexão sobre o papel do homem na sua relação com a Terra dada por Deus. A reflexão inspirada em II Co 5.18-19 é do pastor Paulo Damião, pós-graduado da FTSA.


“O MANDATO CULTURAL E O MINISTÉRIO DA RECONCILIAÇÃO” – 
Pr. Paulo de Melo Cintra Damiao

INTRODUÇÃO:
Parceria – palavra do momento. “O homem não é uma ilha”.
A Bíblia começa com terra e termina com nova terra e não outra terra.
Desde a criação, Deus estabelece uma parceria. “Ele podia fazer tudo sozinho, mas, preferiu contar conosco.”
Parceria na criação – “façamos o homem” – toda a Trindade. Parceria na formação do homem com a terra – interdependência – Gn.2.7 e Parceria na missão – “Mandato Cultural” – estabelecer uma cultura: princípios, regras, valores e relacionamentos – a 1ª benção. Gn.1.28-29.
Nesta parceria podemos encontrar, pelo menos, três funções que o ser humano deve desenvolver:

I.- FUNÇÕES GERAIS
a) Domínio na procriação – É interessante notar que, depois de Deus abençoar o primeiro casal, a primeira ordem tenha sido de “crescer e multiplicar”. Diferentemente dos anjos, criaturas criadas por Deus antes de criar o homem, o ser humano recebe de Deus a função de gerar novos seres humanos.
b) Domínio sobre a terra – Esta função o ser humano tem desenvolvido muito bem, através das mais diversas ciências, manifesta através do acúmulo de conhecimento, que passa de uma geração à outra, produzindo novas descobertas.
c) Domínio sobre os animais – O ser humano desenvolveu técnicas para dominar os animais, domando-os e colocando-os ao seu serviço, sendo que, muitas vezes extrapolando e usando de muita violência.
d) Domínio gastronômico – Esta é uma função nem sempre comentada pelos biblistas, mas, o fato é que o primeiro casal precisou desenvolver técnicas gastronômicas, para se alimentar, num primeiro momento de vegetais e depois do pecado, também dos animais.

II.- FUNÇÕES ESPECÍFICAS
a) Cultivar o jardim – torná-lo produtivo. Muitos pensam que Deus ficou criando árvores e frutos todos os dias, constantemente. Não me parece ser esta a situação, quando Ele determina que o jardim fosse cultivado e se tornasse produtivo. Deus deu os frutos com suas sementes e o ser humano precisou aprender a agricultura e outras ciências relacionadas ao cultivo.
b) Guardar o jardim – proteção e equilíbrio – Esta função tem sido negligenciada ao longo da história humana, em nome da ganância. Por querer ganhar sempre mais, o ser humano não guarda o jardim de Deus e por isso, a natureza cobra a conta. Despeja-se resíduo toxico nos rios e na terra para ganhar mais e depois, tem que gastar muito mais para recuperá-los.
c) Obedecer no jardim – “se comeres, morrerás” – Administrar o jardim de Deus requeria ato de obediência e Deus deu todas as condições para que o ser humano não pecasse. Havia milhares de frutos e só de um não se podia comer. Entretanto, provocados pelo diabo, que semeou no coração dos nossos primeiros pais o desejo de serem deuses, como ele, diabo, um dia pensou em ser, eles sucumbiram à tentação e não obedeceram a ordem do Criador.

III.- FUNÇÕES FAMILIARES
a) Parceria na criação da mulher – interdependência – Gn.2.21-25 – É interessante notar que, do primeiro ao quinto dia, Deus criou tudo pelo poder da Sua Palavra, mas, no sexto, ao criar o homem, usou pela primeira vez matéria prima pré-existente – a terra – gerando assim uma interdependência entre ambos. A terra só é produtiva porque o ser humano nela trabalha e este sobrevive, porque tudo o que ele precisa encontra nela. Essa mesma interdependência se estabelece quando da criação da mulher, pois, Deus não usa o mesmo método criativo, mas, do homem, faz a mulher, gerando outra interdependência.
b) Na procriação e no prazer sexual – crescei-vos e multiplicai-vos – Novamente se menciona a questão da procriação e, pelo contexto todo da Bíblia, não se entende a relação sexual tão somente para procriação, mas, também, para o prazer de ambos.
c) Nas declarações afetivas – “afinal essa é osso dos meus ossos e carne da minha carne” – Sem dúvida que, nos dias de hoje esta frase não seria vista como uma declaração de amor, mas, no contexto da solidão de Adão, faz todo sentido.
d) Na unidade – “uma só carne” – Além de a mulher ter sido formada a partir do homem, o relacionamento entre ambos, estabelece uma unidade entre ambos, em todos os sentidos da vida.
e) Na bênção – “E Deus os abençoou” – É lindo pensar este momento! Para mim, vejo o primeiro casal ajoelhado e o Criador estendendo Suas mãos sobre ambos.
f) Nos direitos e deveres – Ambos foram abençoados e receberam do Criador os mesmos direitos e deveres, sem nenhuma distinção. Tanto o homem como a mulher receberam a benção de administrar o jardim de Deus, caso que, infelizmente, o pecado mutilou.

CONCLUSÃO:
Desde o início, Deus nos convida à uma parceria com Ele, propondo-nos o Mandato Cultural, que deve ser estabelecido, também, em parceria entre marido e esposa, Igreja, sociedade e culturas, especialmente em relação à preservação da terra. Com a entrada do pecado, todos os aspectos do Mandato Cultural e da parceria foram afetados, quebrando-se a harmonia. Paulo afirma em II Cor.5.18-19 que: “Deus estava em Cristo, reconciliando consigo o mundo… e nos deu o ministério da reconciliação.” Em Cristo, tudo já está restaurado, porém, em nós, ainda não. Devemos nos empenhar para que tudo do projeto original de Deus possa ser restaurado em nossas vidas e cultura.

Pr. Paulo de Melo Cintra Damiao – Pastor da Igreja Presbiteriana Independente, pós-graduado da FTSA e autor do livro “A Ecologia e o Ministério da Reconciliação”.