“Isso significa que cada âmbito de existência, cada grupo social, étnico, linguístico, religioso percebe o meio ambiente e o transforma tornando-o seu ambiente, ambiente do meio”.
por Prof. Dr. Lucas Merlo Nascimento
Enquanto a humanidade não desenvolver a capacidade de sobrevivência em outros planetas, a Terra continuará sendo seu lugar de habitação junto a outras espécies, a “casa comum” dos povos, independente da nacionalidade, língua ou religião. Sendo a “casa comum” de todos, a preocupação com as condições e qualidade de sobrevivência deve ser, igualmente, preocupação de todos. A cada dia tornam-se mais flagrantes os desafios ecológicos e climáticos, aos quais não se pode mais ignorar.
Ainda que habitemos todos a “casa comum”, esse meio ambiente é percebido e transformado pelas distintas culturas de maneiras igualmente distintas: o meio ambiente se torna, também, ambiente interpretado, apreendido e transformado por um determinado meio. Isso significa que cada âmbito de existência, cada grupo social, étnico, linguístico, religioso percebe o meio ambiente e o transforma tornando-o seu ambiente, ambiente do meio.
Uma vez que as tradições religiosas são um componente importante na lógica das identificações e agrupamentos humanos, as heranças de tais tradições influenciam a forma como seus adeptos enxergam e transformam seu ambiente. Cada tradição religiosa estabelece formas de ver o mundo e, com elas, desenvolvem sistemas de valoração.
Considerando essa relação dialética entre a “casa comum” (meio ambiente) e como grupos distintos a transforma (ambiente do meio), é necessário que cada tradição religiosa identifique em sua herança dispositivos que possam ser acessados na direção do cuidado ecológico. Cada tradição precisa resgatar em seus textos religiosos, cantos, narrativas, orações, elementos que permitam articular, em sua própria linguagem e para seus adeptos, ideias que resultem em ações de cuidado ecológico.
Nesta perspectiva, apresenta-se como desafio à tradição cristã um retorno à Bíblia enquanto texto sagrado acompanhado de preocupações ambientais, a fim de, revisitando sua própria linguagem de fé, sejam evocados elementos teológicos que permitam despertar na igreja o cuidado com o meio ambiente.
Esse exercício foi realizado pelos teólogos Howard Snyder e Joel Scandrett, na obra “La salvación de toda la creación”. Os autores propõem que a atuação da igreja no mundo seja marcada pela restauração, isto é, por ações que materializem a salvação, desfazendo o “divórcio entre céu e terra” e a equivocada oposição entre espiritualidade e materialidade, propondo que também a ecologia seja âmbito do testemunho da igreja. Neste sentido, estabelecem quatro princípios ecológicos para a tradição cristã:
- O princípio do cuidado com a terra
A ação humana sobre a terra deve espelhar a ação divina enquanto criador e sustentador. - O princípio do dia de descanso
Considerando os calendários sabáticos presentes nos textos bíblicos (sábado de dias, sétimo ano e o ano do jubileu), também ao meio ambiente deve ser permitido o descanso, o repouso da ação humana sobre a terra e a recuperação de seus recursos. O descanso, neste caso, representa a consciência da limitação de produção da terra, a lembrança de que seus recursos não são inesgotáveis. - O princípio da fecundidade
O reconhecimento de que a criação é fecunda, se multiplica e que tal fecundidade precisa ser preservada e desfrutada. Não à toa, a fecundidade foi também usada no Novo Testamento como metáfora para a vida transmitida: “dar frutos” (Jo 15:8.16). Só é possível compreender essa dimensão da fecundidade respeitando e preservando a fecundidade da criação: a vida que insiste em viver. Apenas sobre essa fecundidade palpável é possível compreendermos a metáfora. - O princípio da satisfação e dos limites
O reconhecimento de que a ação humana não é irrestrita. Nas narrativas da criação, há limites estabelecidos para a ação humana que fazem parte da ordem criacional. É o reconhecimento desses limites que permite à humanidade e ao restante da criação encontrar satisfação.
Conforme Snyder e Scandrett propõem, o reconhecimento e a vivência desses princípios fazem da igreja a comunidade redentora e restauradora desejada por Deus. Assim, o cuidado ecológico é resgatado, na tradição cristã, como tema redentivo com dimensões missiológicas que não devem ser ignoradas.
Reconhecendo a urgência do assunto, o Programa de Pós-graduação stricto sensu em Teologia realizará em julho deste ano o V Simpósio do Mestrado Profissional em Teologia com o tema “Ecoteologia: um chamado para a práxis”, evento aberto aos interessados em refletir sobre as implicações ecológicas de sua fé.
Obra citada
SNYDER, Howard; SCANDRETT, Joel. “La salvación de toda la creación” Flórida: Kairós, 2016.




